"O Conde de Monte Cristo", de Alexandre Dumas

agosto 05, 2018


Se você vive nesse mundo, posso afirmar com muita certeza que você já passou por maus bocados nessa vida. Seus amigos já te desapontaram pelo menos uma vez, pessoas em que você confiou acabaram te provando que você não deveria ter confiado e a convivência com outros seres humanos te mostrou que não somos uma raça muito nobre.

O que fazer diante de tantas decepções? Se trancar, se recusar a confiar mais uma vez, viver ao redor de paredes invisíveis que você mesmo construiu? Ou talvez seja melhor tomar uma decisão proativa e ir confrontar as pessoas que te fizeram mal? Você pode até achar que tem uma resposta correta para a minha pergunta agora, mas, com o livro de hoje, eu vou te mostrar que convivência, vingança, inveja não são ciências exatas.

"O Conde de Monte Cristo", clássico da literatura francesa, foi concluído em 1844 e sua publicação, na época, foi feita através de folhetim. Por tudo que eu comentei no começo desse post, posso te falar com muita certeza que, por mais que você já tenha se decepcionado com o ser humano na vida, nada se compara com a jornada pela qual o nosso personagem principal de hoje teve que enfrentar.

Edmond Dantès, jovem marinheiro com futuro promissor, é um rapaz muito querido pela comunidade em que vive, está apaixonado pela Mercedes, uma jovem catalã com quem pretende se casar, e está prestes a ser promovido ao posto de capitão da embarcação em que trabalha, tendo em vista o falecimento do capitão anterior.

Acontece que antes de morrer, o então capitão do navio o deixou uma tarefa a cumprir, o que fez com que ele passasse em Elba e retornasse de lá com uma carta a ser entregue em Paris. O jovem Dantès cumpriu com felicidade o que lhe foi ordenado. O que ele não esperava era que havia naquela embarcação uma pessoa, Danglars, que almejava a posição que ele estava prestes a adquirir.

Ademais, Dantès também não contava que o primo de sua noiva Mercedes estava perdidamente apaixonado por ela e faria qualquer coisa para tirá-lo do caminho. Quando o Phaaraon, navio em que Dantès e Danglars trabalhavam, retorna a Marselha e o jovem marinheiro se organiza para casar com a jovem catalã, o primo de Mercedes (Fernand) e Danglars criam um plano e uma denúncia anônima para destruir a vida de Edmond Dantès. Junto a eles, estava um terceiro indivíduo, Caderrouse, que no momento não tomou qualquer decisão para impedir o ocorrido.

Na época, Napoleão estava exilado e qualquer contato ou manifestação bonapartista era visto como um crime terrível. Foi exatamente de bonapartismo que o jovem Dantès foi acusado em função da sua passagem misteriosa por Elba e da carta que carregava. Para completar o enredo, sua causa recai sobre um juiz cujo pai era Bonapartista e, por acaso, era o destinatário da carta.

O juiz, buscando promoção no seu cargo, não quis lidar com os riscos de ter o nome de seu pai envolvido em escândalo bonapartista e, por isso, destruiu a carta. Ela era a única evidência que Dantès possuía de que ele estava apenas fazendo um favor, cumprindo ordem, e não possuía qualquer relação com os crimes dos quais foi acusado.

Diante desta situação, o juiz o manda para uma prisão terrível no Castelo de If, onde Dantès passa mais de 15 anos de sua vida sem saber o porquê de ter sido preso. Nesse ínterim, ele não teve a oportunidade de se casar com Mercedes e nem de ver o seu velho pai antes do falecimento. 

Acontece que na prisão Edmond conhece o Abade Farias, que se dispõe a ser o seu mentor. O velho se dedica a educar o rapaz de todas as áreas do conhecimento existentes na época. O ensina filosofia, biologia, medicina, novos idiomas, lógica e tudo mais que ele adquiriu de saber ao longo da vida. Além disso, o velho passa para Dantès um possível mapa do tesouro.

O plano era que os dois saíssem de lá juntos. Por motivos que vocês vão descobrir, apenas Edmond consegue fugir, mais de 15 anos depois de sua entrada. Ele realmente consegue encontrar o tesouro, que estava guardado na Ilha de Monte Cristo e, então, se torna O Conde de Monte Cristo. 

Enquanto todas essas mazelas aconteceram na vida de Dantès, os seus inimigos e as pessoas que o prejudicaram ascenderam em suas vidas econômicas e sociais e, claro, aquele que um dia foi um jovem ingênuo e muito bondoso, tornou-se frio e focado apenas em vingar-se dessas pessoas. 

Talvez esse seja o ponto em que eu vá te dizer que eu nunca vi um personagem tão magicamente estruturado quanto Edmond Dantès. Ele passa de um jovem muito querido e bondoso, para um homem rico, cheio de personas diferentes, vários nomes e capaz de impressionar todas as pessoas ao seu redor. E é com essa nova roupagem que ele volta para o meio das pessoas que o machucaram para que a vingança finalmente se completasse.

O que eu posso dizer a partir daí é que o livro é uma dádiva concedida à humanidade. Todo o caminho, da página 1 até a 1600, é fascinante e os planos do Conde começam a ser cumpridos assim como ele os traçou. Entretanto, não apenas de frieza viverá o homem. O Conde também mostra o poder de ser gentil, de ajudar aqueles que precisam dele.

A verdade é que ele se coloca como a própria Providência, como instrumento do querer divino e, entende estar autorizado para exercer a sua vingança como melhor lhe aprouver. Claro que as coisas não funcionam assim e nenhum de nós tem qualquer aval divino para agir como bem quisermos e é exatamente aí que reside talvez a grandiosidade desse livro: entre uma vingança e outra, ele refina o seu olhar para o que ainda há de bom.

Acredito que a partir daí fique claro que, muito embora não pareça, ainda há vida para ser vivida após as decepções, após os desapontamentos, após ter sido vítima de atos terríveis. Em verdade, ainda há amor após o ódio, ainda há alegria após o choro e continuar promovendo a guerra só faz com que a paz demore de retornar. Essa talvez tenha sido a lição mais valiosa que eu retirei desse livro.

Uma das últimas linhas do livro, que reserva todo o recado que o Conde deseja passar, é a coisa mais real que eu já li. Segundo ele, devemos viver e ser felizes, porque enquanto Deus nos permite ter um futuro, toda a sabedoria humana estará nessas palavras: esperar e ter esperança. E quanto Dantès teve que esperar pelo agir de Deus, pelas oportunidades? Muito tempo. Por quanto tempo ele precisou manter a esperança? Por mais tempo ainda.

A sabedoria não reside na vingança, mas em saber manter a fé, esperar e ter esperança. Claro que eu não posso contar mais nada além disso. Essas foram as impressões que eu tirei do livro, mas ele é MUITO mais denso e cheio de detalhes do que o que eu consegui comentar aqui. Só te deixo um conselho: não fique com medo do tamanho do livro, apenas leia, vai ser uma experiência incrível!

Este é um calhamaço com muitas histórias paralelas das quais eu não pude comentar aqui e com um final completamente diferente daquele que o filme deu! Fiquei totalmente surpresa. As vinganças são diferentes e o caso de amor principal é bem diferente do esperado. Por tudo isso, aconselho fortemente que você leia O Conde.

E para todos nós que fomos desapontados, fomos vítimas de atos ruins, fomos desvalorizados, massacrados, fica o recado do Conde: esperar e ter esperança!

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