Esquinas que se parecem com você (cura)

julho 29, 2018


Fui embora dessa cidade
Não pretendia voltar
Cada canto dela ecoava
Tudo aquilo que eu gostaria muito de esquecer
Todas as vezes em que me aborreci
As vezes que eu não estava satisfeita
As vezes que eu adoeci
Mas o que eu também queria deixar pra trás
Era o fato de que todas essas vezes eram ambivalentes
Para cada aborrecimento, insatisfação ou doença
Eu tinha um momento contigo
E de repente essa cidade não me parecia tão ruim
E a vida era essa polarização de sinais opostos 
Como aquele dia do hospital
Sempre odiei hospitais
Mas eu realmente precisava ir dessa vez
Você foi comigo
Sentou ao lado da maca, bem perto do soro
O soro era a parte que eu mais odiava
Ele

caía

aos

poucos

uma

gota

de

cada

vez

E me deixava sempre muito impaciente
Mas dizem por aí que o tempo se escoa quando estamos com quem amamos
Comprovei empiricamente
Era verdade
O soro impregnou minhas veias
Como uma torneira aberta na velocidade máxima
E você tinha cara de cura
Ternura
Estrutura
E eu pedi: jura...
Jura que vai ficar.
O soro acabou, tive alta
Enquanto o táxi chegava, na esquina do hospital, você jurou.
Eu entendi que as vezes a gente jura, mas não pode cumprir
Você não conseguiu cumprir
E de cura, você passou a ser tortura
Amargura
Loucura
Mas, acima de tudo, literatura
Vivo escrevendo poemas sobre aquela esquina
Que tem você estampado em cada canto
E te fiz leitura nos muros da cidade.

Créditos: Foto.

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