Sutileza na dor: uma resenha de Outros Jeitos de Usar a Boca da Rupi Kaur

maio 08, 2018


Um dia desses eu estava passeando pelo Instagram e vi que o John Mayer (falar dele em todas as oportunidades já virou costume nesse blog, rs) indicou o cd novo de uma cantora, explicando que a arte dela é construída de forma a revelar que há uma dor cravada no peito, daquelas que todo mundo tem, mas que ela transmite de uma forte singela, muito artística e sutil, como se estivesse tudo bem em guardar aquela dor e visitá-la vez ou outra.

Achei a descrição dele muito curiosa, ouvi o cd e percebi aqui e ali a dor que ele comentou com tanta empolgação. Logo depois, comecei a ler o livro que vamos resenhar hoje e compreendi de forma muito melhor esse ideal de usar a arte como malabarista para as nossas dores. Digo isto em função de a Rupi Kaur ter conseguido unir nesse livro quatro estágios da vida de praticamente todas as pessoas, unindo suas dores às descobertas de uma forma tão sutil que me surpreendeu bastante.


O livro em questão é divido em quatro partes, a dor, o amor, a ruptura e a cura e é construído por poemas curtos e várias ilustrações que traduzem a vida e a experiência de todas nós. Digo todas nós no feminino, justamente em razão de a autora se preocupar com temas eminentemente feministas, corroborando de forma muito singela com o direito de a mulher ser e se sentir igual, valiosa, peculiar, como o ideal que é pregado pelo movimento.


Assim, na primeira parte, destinada à dor, vamos ler relatos muito sinceros a respeito de abusos, de ausência paternal, de estupro, do abandono e da denúncia sobre como pais criam suas filhas. Eu que antes de ler achei que iria me deparar com poemas de amor, fiquei completamente encantada com a capacidade da autora de atingir temas tão difíceis de serem tratados, mas que ela consegue fazer com uma certa genialidade e com tamanha sutileza, capazes de transformar aquela dor em arte.


Na segunda parte, a do amor, talvez tenha sido a minha preferida! Não só em função de ser uma romântica assumida, mas justamente pelo fato de me surpreender com amores nada idealizados. A autora descreve amores reais, com conotações livros de sexualidade, sem tratar o tema como um livro erótico, mas como um amor tão real e artístico que pega o leitor de surpresa. A demonstração do amor através do sexo e das liberdades rende belíssimos poemas que valem a leitura.


Na terceira parte, o leitor se reconhece em tantos poemas, como se o livro fosse um espelho! Mais uma vez, há uma dor presente, porém tão sutil. Há denúncias também, muito vivas, mas escritas de forma super artísticas. Essa parte compreende a consequência das histórias de amor que é a ruptura e essa linha tênue entre o início e o fim que a gente vive ultrapassando.


A cura, sendo a última parte, é quase como a libertação, como o florescimento em meio à dor. Representa o final do trajeto que percorremos desde o início do livro e está carregado de mensagens incríveis de aceitação, empoderamento. É o desabrochar ao qual estamos destinadas!


Falei de forma bem genérica a respeito das partes, justamente para não estragar a experiência de leitura de vocês e para que vocês consigam entender que por trás das poesias, há um ciclo a ser seguido, uma espinha dorsal que vai desde a raiz e fundamento da dor até o florescimento através dessa dor. É um livro que pode ser lido em questão de horas, mas que traduz uma vida inteira. É realmente uma obra muito especial.


Antes de finalizar a resenha, eu preciso destacar um pouco mais as mensagens em favor da expressão natural e libertária da mulher que me marcaram demais. A autora é incisiva ao destacar que a mulher não deve esconder sua liberdade sexual, seus desejos e vontades. Ademais, ela fala também sobre a liberdade do nosso corpo, sobre menstruação e depilação e outros temas que nunca são discutidos, mas que o peso das imposições sociais permanecem em nossos ombros por séculos.


Outros Jeitos de Usar a Boca também nos mostra diversos jeitos de usar a mente, de libertar nossos corpos. Fala sobre diversos jeitos de ser mulher, sem rótulos, apenas elevando aquilo que nos é natural e que não deve ser repreendido.Destaca outros milhares de jeitos de usar a dor como arte e este deveria ser um livro espalhado por aí e lido por todo mundo!

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2 comentários

  1. Quero muito ler esse livro! Parece ser bem emotivo e que nos atinge bem no fundo da alma, gostei muito do seu post!

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    1. Muito obrigada!!!! Leia mesmo, é uma experiência super válida!

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