Sobre dias das mães e presentes sexistas: uma conversa com minha mãe e mudanças de comportamento

maio 05, 2018


Por motivos diversos, inclusive a necessidade de estudar, saí da casa dos meus pais há quase 10 anos. Nesse período, perdi muitos momentos festivos, vários dias das mães, aniversários, dias dos pais, justamente por que as datas coincidiam com períodos de prova ou épocas em que o trabalho não me permitia retornar. Entretanto, do final de 2017 pra cá minha vida, minha vida deu belíssimas reviravoltas, saiu do planejado, abandonou o script e cá estou, em 2018, de volta às Minas Gerais na casa dos meus pais mais uma vez quase 10 anos depois.

Como eu sempre estava longe, nunca me preocupei muito com presentes, mas quem me acompanha desde algum tempo vai se lembrar que nessa época do ano eu SEMPRE escrevia textos para meus pais, justamente porque no início de maio temos o dia das mães e o aniversário de meu pai. Para mim, fazia sentido reforçar a importância, o respeito e o amor imenso que tenho por eles com aquilo que eu mais gosto de fazer uso, que são as palavras.

Acontece que 2018 quebrou o ciclo e cá estou eu ao lado dos meus pais e sendo bombardeada por notícias, propagandas, posts de blog e instagram dedicados a presentes de dias das mães. Este não é um post dedicado a consumismo e o foco dessas datas, a comercialização de sentimentos e tal. Não que não seja um tema importante, é sim. Mas a gente vai conversar sobre consumismo em outro momento e de outra forma e hoje que quero falar de algo que me parece passar mais despercebido que isso. Então vamos lá.

Boa parte dos presentes de dia das mães são sexistas. Você já tinha pensado nisso? Aqueles aparelhos eletrodomésticos lindos e brilhantes reforçam um ideal não muito bacana. Vocês já perceberam isso? Gente, eu passei vários anos dedicando minhas palavras aos meus pais ao invés de comprar presentes e me sinto bem com relação a isso, mas percebi também que antes dessa minha empreitada "escritora" (risos), minha mãe também já ganhou presentes sexistas. 

Perceber isso me incomodou. Fui conversar com ela. Ela me contou que a cafeteira foi presente, o aparelho elétrico de fazer suco de laranja também, o micro-ondas, dentre outros produtos que guarnecem a nossa cozinha. EU FIQUEI APAVORADA e um pouco culpada por não ter prestado atenção a isso! Eu não gostaria de ganhar esses presentes, sendo muito sincera com vocês e, muito embora ela não diga, não acho que tenha sido algo que fez minha mãe feliz também.

Sabe o que esses presentes dizem, mesmo que seja a intenção de quem os deu? Eles reforçam a servidão, a necessidade de a mãe cuidar da casa, alimentar a família. Além do mais, acaba sendo um presente pra casa inteira e não algo exclusivo e pensado pra sua mãe. Todo mundo vai tomar café e suco e esquentar a janta no micro... Não parece um presente que é pensado para a sua mãe e que vai trazer algum significado bacana pra ela!

Perguntei pra minha mãe o que ela dava pra mãe dela de presente e curiosamente ela respondeu que sempre presentou com as mesmas coisas, elementos para a casa, eletrodomésticos e afins. Ficamos conversando sobre isso por um tempo e compreendemos que estas foram atitudes fundadas em profunda boa vontade, mas que realmente a gente não pensa muito na mensagem por trás do presente.

Certamente, somos bombardeados o tempo todo por um ideal de presentes que não passam a melhor mensagem e nós não estamos pensando nisso. Mas precisamos pensar e mudar de perspectiva! Me parece óbvio, mas vou ressaltar: mães não nasceram para servir, não possuem essa função e o dia das mães não deveria ser uma exaltação dessa realidade. Os serviços de casa são destinados a QUALQUER pessoa que precise sobreviver, homem ou mulher e presentear mulheres com elementos que reforçam a casa e os serviços familiares como suas funções não é uma visão que deve prevalecer!

Conversando isso com minha mãe, começamos a pensar nas coisas que a gente já deu pra meu pai de presente. Vários CDs, uma coletânea do Tom Jobim, DVD's de shows de MPB e elementos sempre voltados para a cultura. Ficamos, nós duas, surpresas com o resultado da nossa conversa, porque não só eu como ela também não tinha notado como os presentes de meu pai estavam voltados para conhecimento, cultura, expressão artística e os dela estavam totalmente direcionados para os serviços de casa!

Nas entrelinhas, é como se o o crescimento artístico e pessoal estivesse destinado a ele e os serviços familiares e de casa para ela. NÃO, não é isso que eu quero transmitir na hora de presentear as pessoas que eu mais amo na vida!

Em 2018 eu voltei pra casa de meus pais e eu não pensava em presentes de dia das mães há algum tempo. Graças a Deus esse retorno tem me rendido boas reflexões e muito crescimento. O que eu achei mais incrível é que minha mãe, sendo destinatária dos presentes, NUNCA OS LEVOU A MAL, mas depois dessa conversa compreendeu que algo não estava certo. O sexismo está entre nós, queridos, mas podemos afastá-lo. Precisamos pensar, racionalizar, discutir e questionar cada aspecto da nossa vida.

Se a sua CASA (não a sua mãe) está precisando de eletros novos, sugiro a você (e a mim, afinal essa também é uma lição minha), que não use o desejo de presentear a sua mãe com algo que é para toda a casa e para toda a família. Foquei mais nos produtos de casa porque se enquadram na minha realidade, mas o que eu quero é que a gente comece a pensar as nossas atitudes, os nossos presentes na integralidade, qualquer que seja ele...

Não esqueça de abraçar a sua mãe, de dizer o quanto ela é essencial e importante, o quanto você a ama. Não esqueça de respeitá-la diariamente, de ajudá-la, de retirar dela os fardos que a sociedade cruelmente impõe... Se depois disso tudo você ainda quiser dar um presente a ela, pense primeiro no que aquilo vai significar e se você entender que a mensagem por trás do presente é tão legal, crível e importante quanto o presente em si, então compre! É só isso!

Dê uma viagem (mesmo que pra pertinho), um livro que ela goste, um perfume que lembra o cheirinho dela com uma carta contando isso, dê presentes que sirvam de memória, que sejam amor em objeto, que tentem traduzir alguma parcela do imenso significado que ela tem pra você! Ou então, pergunte a ela o que ela gostaria de ganhar, incentive-a a pensar fora da caixa, fora das tradições sociais, você pode se surpreender com a resposta!

Já que estou pertinho da minha mãe esse ano, perguntei o que ela queria ganhar e ela me disse que queria uma massagem relaxante, daquelas no corpo inteiro que fazem em spa. É um presente que acaba no fim do procedimento, mas o que não acaba é o caminho que essa família está trilhando em direção à defesa dos direitos da mulher, ao fim do sexismo, do machismo ou de qualquer outra expressão social que diminua, segregue, sedimente ou desrespeite a mulher e o que ela deseja ser!

Posts relacionados

0 comentários