O nome dessa história - não deveria ser, mas é - "e se?"

maio 30, 2018


Sabe essas histórias que a gente chama de "e se?"? Ela odiava. Primeiro por que elas não tem nem nome próprio. Ela sempre achou que se você precisa chamar uma história de "e se?" é por que nem de história ela deveria ser chamada. E segundo por que são histórias que nunca visitaram a realidade. Sempre ficaram ali orbitando a zona da imaginação e a parte do coração dedicado às coisas que você gostaria muito que fossem verdade, mas que não são.

Ela assistiu à primeira temporada de 13 reasons why e decidiu que não ia ver a segunda. Para ela, além de todos os acontecimentos de partir o coração da primeira temporada e toda a importantíssima mensagem sobre o quanto precisamos mudar e evoluir na forma como tratamos uns aos outros, o que mais a assustou foi quão definitivas algumas dessas histórias são.

Ela se pegava pensando que Clay teve medo de amar Hanna e teve que viver pra sempre com o coração partido se perguntando como seria se ele tivesse um pouco mais de coragem. E se? E se ele tivesse falado? E se ele tivesse ficado? E se ele tivesse corrido atrás? E se?

Acontece que o que ela não gostava de admitir era que a história de Clay e Hanna doía ainda mais por causa das suas próprias histórias. Ela tinha um "e se?" ou outro guardado no fundo do armário e do coração. O que fazer com eles? Não tinha a menor ideia! Continuava acordando, indo trabalhar, pagando contas, vendo filmes, lendo livros, indo domir e repetindo o ciclo milhares de vezes, evitando pensar que talvez as histórias sejam assim por culpa sua.

Uma dessas histórias vivia visitando seus pensamentos todos os dias. O dia em que a amiga em comum o apresentou a ela, o dia em que ela decidiu mandar mensagem pra ele. O dia em que ela percebeu que ele não queria muito papo e teve que deixar pra lá, seguido do dia super animado em que ele mandou um "Feliz ano novo" depois de muto tempo que eles não se falavam.

Os dias em que ela percebeu que ele era só muito reservado e estava se acostumando a se abrir com ela foram dias felizes. Os dias das perguntas simples, a preocupação com o que ela estava comendo, se estava alimentada... O dia em que ele prometeu que a distância deixaria de existir e os dias em que eles assistiram as séries ao mesmo tempo, apesar de estarem em locais opostos do globo... Dias felizes. Dias reais a visitam sempre.

O problema das histórias sem final, o grande problema do "e se" é não saber como acabaria ou se acabaria. Então ela também lembra do dia em que as mensagens pararam de chegar, os dias em que a preocupação diária não foi externalizada, o dia em que a distância real não foi encurtada pelo diálogo. Ela teve que aceitar que algumas histórias não saíam da introdução e, pensou que talvez esse seja um belo nome para histórias "e se": histórias que não saíram da introdução.

Três anos se passaram, mas não houve um dia sequer em que ela não se lembrou dele e dos momentos agradáveis de cumplicidade por mensagens de texto. Ele ainda estava sozinho e ela também, pelo menos aparentemente. Se ele pelo menos soubesse que ela não esteve sozinha de fato nos últimos anos, porque as memórias a fizeram companhia. E se ele soubesse? Deixou pra lá, não tinha coragem.

Em um desses dias em que a gente só quer ler um livro e não pensar muito, ela foi pega de surpresa. O autor do livro dizia que uma das formas de você colocar as coisas em perspectiva e repensar toda a sua vida é escrever um email perguntando o que você poderia mudar e melhorar, quais são as suas principais qualidades e defeitos e enviar para todos os seus contatos. Ela, que não tem coragem de assumir sentimentos e está acostumada a guardá-los no fundo do peito, pensou que jamais faria isso.

Acontece que naquela noite ela não conseguiu dormir. Aproveitou um impulso único de coragem e abriu o notebook. Foi direto para o email, mas colocou apenas um endereço de envio. O dele. Analisou o cursor piscar enquanto pensava no que dizer. Não sabia nem como começar.

Como é que se explica que sentiu falta de uma pessoa por três anos sem falar nada? Como falar que não aceita que essa história sejam uma dessas que não passam da introdução? Como diabos é que se explica que sentiu falta das perguntas simples, do bom dia, de ver as séries sozinha e acompanhada ao mesmo tempo? Como é que ela poderia dizer que apostaria todas as fichas neles dois se essa foi uma história que nunca avançou?

Na mente dela, não haveria no mundo uma forma de explicar. Por isso ela escreveu apenas: "e se?". Apertou enviar e se afastou do computador. Viu que já tinha passado de uma da manhã. Enquanto repensava as milhares de formas que essa mensagem poderia ser interpretada, ouviu o barulhinho de notificação. Foi correndo para abrir o email, coração na mão, nem acreditou quando leu:

- Você sempre será o meu "e se" favorito! 

Ela aproveitou o temporário momento de coragem e respondeu: "eu não sei como explicar". Apertou enviar. Milésimos de segundos depois o telefone tocou. Ela atendeu com um oi muito tímido. Ouviu a voz dele dizer: "a questão é que nós não somos muito bons em escrever histórias por mensagens de texto. Talvez sejamos melhores com email, não sei, mas de qualquer forma quero testar logo essa coisa de ligação para não correr o risco de a gente se perder por mais três anos porque uma forma de comunicação não funcionou muito bem. Aproveitando a fase de teste, vamos tentar o ao vivo também? Que tal tomar um café no sábado?"

Antes de dormir naquela noite ela tinha finalmente entendido. Os problemas não são as histórias sem nome próprio, chamadas de "e se?" ou que ela nomeou de histórias que não passam da introdução. O problema não é o personagem da série, o problema não é a memória que insiste em fazer lembrar. Os problemas somos nós. Habitamos sentimentos muito maiores do que somos capazes de carregar. É por isso que eles devem ser compartilhados.

Ela foi tomar aquele café no sábado e, enquanto andava pela rua com um sorriso no rosto, pensou que essa história vai passar da introdução, vai ter diversos capítulos e, talvez, até um fim, mas decidiu que independente do que a vida a reserve, ela não vai mais deixar que o medo de tentar a impeça de escrever sua própria história.

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