Encontro de consciência e crueldade: uma resenha de Risco Escuro na Claridade de Maiky da SIlva

abril 24, 2018


Passamos por essa vida sem maiores percalços além dos habituais e característicos do viver porque somos amparados. Mantemos relações que nos amparam, fazemos coisas das quais gostamos e que, por isso, nos amparam, cultivamos sentimentos que nos amparam e acreditamos em forças maiores que nós e que nos amparam. Naturalmente, quando nos sentimos desamparados e sem muito propósito, recorremos a essas pessoas, lugares ou coisas.

Desde um diálogo com seus pais, uma oração ou a leitura de um livro acolhedor (meus amparos favoritos), até um passeio com amigos, ir dançar ou qualquer outro da infinita lista de amparos, todos nós sabemos ao que recorrer quando os nossos calos apertam. Mas me diga algo: você já foi o seu próprio amparo? 

As vezes, criar uma figura de si para te amparar pode causar um encontro não só com a sua consciência como também com os detalhes mais sutis e primitivos da natureza humana. Foi o pensamento que me ocorreu durante a leitura do livro de hoje. Então, como de costume, vamos à obra e depois retornamos à discussão.

Descobri esse livro passeando pelo Instagram. Vi que a Fernanda Vianna do @fala_fernanda tinha lido por indicação do próprio autor e ela fez um relato tão sincero sobre o livro, passando a impressão de que ele tinha impactado a vida dela de alguma forma. Claro que eu fui baixar imediatamente e comecei a ler do Domingo (22).


Mais tarde naquele dia eu estaria sentada no sofá, Kindle na mão, olhar vago, tentando entender como as 35 páginas que eu li passavam a sensação de que eu tinha lido um senhor calhamaço. Relatei rapidinho a história pra minha mãe, que ficou tão atônita quanto eu e que teceu comentários e teve reflexões diferentes das minhas. Característica de um grande (pequeno!) livro, queridos. Vamos a ele!

A obra é separada por cartas (que não são cartas) e na primeira você se depara com um narrador extremamente sincero e objetivo que vai te contar, em primeira pessoa, na frase inaugural do livro: "Decidi ser louco num sábado qualquer, num dia ordinário, numa data comum". É a sentença inicial que sustenta de forma muito poderosa todo o livro. 

Não sei você, mas uma abertura dessa me remete imediatamente a Gregor Samsa metamorfoseado num inseto monstruoso na primeira frase de Metamorfose. Falaremos sobre Kafka mais a frente, porque é realmente impossível para mim não comentar esse fator.

De qualquer forma, nosso narrador e personagem principal decide realmente dramatizar uma loucura pensada durante vários dias. Saberia que precisava ser convincente, então traçou seu comportamento, desde olhares vazios, a tiques nervosos para imprimir uma "imagem da loucura". Acontece que ele foi completamente ignorado e, sentido-se muitíssimo provocado pela indiferença, gritou e esperneou "apenas escarnecendo o espetáculo que eram nossas vidas desastrosas".


"Degradei-me. E a troco de quê? É como se em um buraco eu me tivesse feito, onde em mim tropeçassem, ou caíssem, mas em mim ninguém demorasse, ou insistisse em real atenção. A loucura talvez seja apenas o afastar do sentido da mão alheia, que nos abracem, ou nos chicoteiem, ainda nos permanecem irrevogavelmente notórias por nossos olhos famintos de miragens não solitárias."

Este é o fim da primeira carta. Na carta seguinte, o nosso personagem dá um passo em direção ao período que antecedeu a dramatização da loucura. Ele retorna para a história da sua infância, seus pais, sua avó, seu passado, sensação de ausência de pertencimento, ausência de propósito, de opções, de saída, de amparo!

Essa estrutura narrativa, pelo menos para mim, funcionou como se você passasse de um momento de completa incompreensão na carta 01 para o exato oposto na carta 02. Eu fui de "como ele poderia dramatizar uma loucura?" para "como ele não poderia dramatizar uma loucura?" de uma carta pra outra.


Não vou expor os motivos para a completa oposição e mistura de sentimentos para não estragar a experiência de leitura de vocês e também não vou descrever o que aconteceu com o nosso personagem além do que dá pra perceber pelos trechos, mas posso adiantar que você se vê diante de uma história de desamparos que não tem a intenção de ser idealizada ou criar uma espécie de herói romantizado que passou por uma infância difícil.

Não é pra ser imaculado, romântico, ilibado. É pra ser real, real como eu e você e como os percalços que a gente estava falando no começo desse post. Só que sem a parte do amparo. E é por isso que ele vai buscar amparo em si, cria uma figura de si através da dramatização da loucura que realmente escarnece aquele espetáculo desastroso que era a sua vida.

Só que além daquele episódio possibilitar um encontro com sua própria consciência, revela aspectos muito peculiares e incrivelmente primitivos das pessoas que vivem com ele e que vão lidar com o momento de loucura. Digo primitivo, nesse caso como sinônimo de cruel, para enfatizar características como as que William Golding descreveu para as crianças em O Senhor das Moscas (resenha aqui) e como as que Kafka descreveu para a família de Gregor Samsa e para a sua própria família (comentários de A Metamorfose aqui e resenha de Carta ao Pai aqui).

Em todas essas obras aconteceu uma coisa em comum: tiraram o ser humano da sua mesmice, da sua zona de conforto e colocaram diante de um desconhecido que o assusta. Parece que o primeiro passo do homem é tender à barbárie, à incompreensão, ao primitivismo e, no caso desse livro, a uma absurda e inacreditável forma de autotutela de interesses que nem são deles para serem tutelados em primeiro lugar.


Acredito que tenha dado pra perceber que essa obra se aproxima dos meus livros preferidos para discutir a natureza humana. O ser humano nu e cru, atolado de defeitos, propenso ao erro e à crueldade é um retrato que eu aprecio na literatura. E é isso que vocês vão encontrar aqui! Dito isto, é impossível para mim não aproximar ainda mais a escrita do autor com a de Kafka.

Além da similaridade com A Metamorfose, um trecho específico do livro consolidou esse fato pra mim. Quando nosso narrador encena sua loucura e precisa lidar com os atos perpetrados por seus familiares que, como dito, são absurdos, cruéis e primitivos, ele sempre se questiona: "os devo algo?". Após o ápice da leitura, já bem perto do fim e bem longe de superar todo o ocorrido, ele continua se perguntando: "os devo algo?".


Um leitor, sendo externo à história, porém emocionalmente ligado a tudo que leu, poderia facilmente responder em alto e bom som "CLARO QUE NÃO". Entretanto, não é uma resposta fácil para o agredido, para o afetado, para o subjugado. Impossível não lembrar da frase icônica de Kafka que seria destinada a seu pai: "You are at once both the quiet and confusion of my heart", que seria algo como "você é ao mesmo tempo a quietude/silêncio e a confusão do meu coração".


Além disso, algo muito peculiar desse livro tem a mesma essência de Um Artista da Fome em Kafka, provavelmente relacionado com a capacidade desses dois escritores de escrever sobre os aspectos reais e miseráveis da natureza humana. 

Para finalizar (já falei demais), esse é um livro de apenas 35 páginas e que, inacreditavelmente, tem reflexões infinitas. Você vai precisar ler pra saber o que acontece com esse personagem, o que ele descobre sobre si, sobre sua família e sobre o ser humano a partir do momento em que decide dramatizar uma loucura.


Aconselho fortemente que você leia esse livro e se depare com as milhares de facetas que podem existir em uma obra de 35 páginas. Provavelmente, se eu for falar sobre ela de novo, já terei novas considerações para fazer. Essas são características de literatura de altíssima qualidade, queridos. Como sempre, esse espaço está aberto para discutirmos. Tenho certeza que muitas percepções ainda podem ser exploradas!

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5 comentários

  1. Oi Karol, você escreve muito bem, parabéns! Vou ler esse livro em breve e volto aqui para tecer minhas considerações. O autor tem mais dois livros na Amazon, um de poesia e um romance. Gostaria de saber sua opinião sobre os outros também.

    Uma curiosidade, você conhece o autor brasileiro também independente "Leon Idris"?

    CAFÉ E BONS LIVROS

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    1. Oi, Kelly! Muito obrigadaaa! Eu quero mesmo ler todos os livros dele!!! Menina, eu sempre vejo muita gente falando bem do Leon Idris, mas nunca li nada. Baixei Minha Sombra Cabe Ali outro dia, estou querendo ler. Vc indica algum específico dele?

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    2. Então, li um conto do Leon Idris recentemente e fiquei encantada com sua escrita "Alfred e a Estante". Vou ler mais com certeza...

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  2. Adoro com o autor/autora consegue causar essa sensação se incomodo no leitor. Eu adorei a sua resenha e nem conhecia a obra, mas vc falou com tanta empolgação que despertou a minha curiosidade. <3 Dica anotada.

    Beijos
    Sai da Minha Lente

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    1. Muito obrigada por comentar. Eu tb adoro quando a história nos traz emoções fortes. O livro é bem curtinho, aconselho mesmo que vc leia! Bjs...

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