Humanidade sujeita às imposições do sistema: uma resenha de As Vinhas da Ira de John Steinbeck

abril 17, 2018


Você já deve ter ouvido muitas vezes a expressão "a mercê". Essa é uma expressão que traduz profundamente as condições criadas nesse livro. Estar a merce significa estar em total dependência de algo e sem nenhuma possibilidade de qualquer reação que não seja a de reafirmar essa condição de dependência.

É difícil imaginar estar a mercê de algo como uma realidade positiva. A situação se agrava ainda mais quando a força impositiva que reage sobre você diz respeito a um sistema, governo, realidade de poucos, de ricos, de "superiores".

Por vezes pensamos pouquíssimo nisso, mas a sensação de ter opções talvez seja uma das melhores do mundo. Você se depara com uma encruzilhada, algumas coisas fogem do controle, mas quando você tem opções, é como se você pudesse traçar um novo roteiro e, eventualmente, as coisas voltariam ao normal.

Entretanto, estar a mercê te retira as opções. As únicas escolhas que você pode tomar são aquelas que o próprio sistema impositivo te apresenta e que, é claro, muito embora possa parecer que você tem saída, a sua condição de marionete só vai sendo cada vez mais reforçada.

Estou pintando esse quadro pra você entender que no livro que vamos falar hoje esses conceitos de estar em dependência de algo, estar a mercê de um tipo de sistema, serão elevados a um nível nunca visto, a um nível de tamanho desespero e luta pela sobrevivência, como se os personagens estivessem num ringue, lutando contra a máquina e perdendo constantemente.

A história de hoje se passa em períodos da Grande Depressão de 1929 nos Estados Unidos, que foi historicamente um dos piores e mais longos períodos de recessão econômica do século XX, gerando altíssimas taxas de desemprego e alterações desastrosas na produção industrial e no valor das ações. Claro que, toda vez que algo chega a afetar as classes economicamente superiores, os pobres já foram massacrados brutalmente.

É exatamente neste contexto que se encontra a família Joad, nossos personagens principais. Eles, juntamente com diversas outras famílias, viviam em condições de meeiros em terras no Oklahoma até serem expulsos de lá de forma brutal, sem que tivessem tempo para se preparar. Na época, eram distribuídos folhetos na região, que falavam sobre as muito atrativas e bem remuneradas oportunidades de trabalho na Califórnia.

Neste ínterim, um dos filhos da família Joad, Tom Joad, esteve preso por ter matado uma pessoa e, no comecinho do livro, é liberado e retorna a casa de seus pais. Claro que quase não encontra ninguém, tendo em vista que a família Joad já tinha comprado um caminhão velho e estava, assim como milhares de outras famílias, a caminho das promessas de uma vida na Califórnia.

Em resumo, eles reúnem tudo que é possível carregar num caminhão velho e, com uma média de 12 pessoas nele, iniciam o trajeto de cortar o país em busca de algo melhor!

Nesse ponto, você pode me perguntar: sair em busca de uma vida melhor não é ter opção? E voltamos para o que eu falei no início sobre o sistema fazer parecer que você tem opções quando, na verdade, aquelas alternativas só vão reafirmar ainda mais a sua condição de pecinha em um jogo que está muito além do seu controle.

A família Joad parte em direção à Califórnia e nosso coração de leitor parte junto com eles. Durante o trajeto, somos apresentados às personalidades que tornam aquela família um seio multifacetado. Temos o Joad, recém saído da prisão que não possui perfil nenhum de criminoso, sendo, na verdade, um rapaz muito atencioso, dedicado à família e cheio de ideais. Temos seus pais que estão "segurando a peteca" na tentativa de alcançar melhores condições para a família.

Temos os avós de Tom Joad também, que tornam a viagem um pouco mais aflita, justamente por não existir condições de um ancião sobreviver a uma viagem miserável e gigantesca dessas. E você sabe disso enquanto lê. Temos uma das irmãs de Tom que está grávida e sonhando em possuir objetos que nunca teve condição. O pai do filho dela também está na viagem. 

Você vai conhecer dois irmãos de Tom também, com perfis completamente distintos. E, ainda sobre os Joad, temos as crianças, irmãos mais jovens de Tom, que assim como os anciãos, representam verdadeira dificuldade adicional no trajeto que eles precisam percorrer.

Por último, mas não menos importante, temos o pregador. Ele não é da família, mas na sua condição de homem de Deus, os Joad entendeu que ele seria boa ajuda no caminho. Ele talvez seja uma das figuras mais curiosas, tendo em vista que não se considera um pregador (muito embora todos ainda o vejam assim), por motivos que você verá em um diálogo INCRÍVEL que ele mantém com Tom logo nas primeiras páginas do livro.

Queridos, o que acontece em seguida é uma viagem longa, massacrante, que vai despedaçando aquela família, como que com a intenção de remover todas as suas belíssimas facetas. Até a chegada na Califórnia, meus caros, muitos acontecimentos sofridos e chocantes vão recair sobre a família Joad. Desde o começo você tem a impressão de que não tem como chegar, a sensação é de uma viagem para a morte.

Entretanto, eles chegam, após diversos contratempos e muitas perdas pelo caminho (por motivos diversos). Quando você tem a impressão de que finalmente os contratempos acabaram, percebe que eles acabaram de começar. A situação na Califórnia é de condição análoga de escravos para aqueles que encontram trabalho.

O estado está entupido de famílias nas mesmas condições dos Joad, que precisam ficar em acampamentos que são pagos e aceitar trabalhos em condições degradantes e que não passam nem perto de pagar o suficiente para o sustento da família. Por fim, nem para comer se tem dinheiro e a condição de humanidade sujeita a tudo que o sistema impõe é o que você vai ver nesse livro.

Não vou contar o que acontece com cada personagem, mas posso te adiantar que cada um dos que somos apresentados nessa obra tem um tipo de desfecho, como se a obra fosse uma representação exata e perfeita da vida.

Caminhando para o fim do livro, fiquei pensando em como a situação seria resolvida. Até perceber que não se tratava de um livro para resolver. Não se resolve o que não tem resolução. Passei a desejar então um fim épico e foi EXATAMENTE o que essa obra possui. Em termos de uma página no final, Steinbeck, dotado de genialidade absurda, reafirma todo o conceito de "a mercê".

De repente, aquele povo (não só a família Joad, mas todos que somos apresentados ao longo da obra) não estão só a mercê do sistema, mas também estão a mercê uns dos outros. Eles só tem uns aos outros. Os que sobraram, claro.

Você vai ser apresentado a uma obra completa, grande, porém extremamente envolvente que narra a luta pela sobrevivência de milhares de famílias. Esse livro vai te proporcionar diálogos tão profundos, pensamentos tão reais, reflexões tão densas que a leitura dele se torna uma medida essencial pra todo mundo.

Para finalizar, um dos diálogos mais marcantes pra mim foi quando os Joad falavam do amor que tinham por sua terra no Oklahoma. Segundo eles, propriedade não tem a ver com papel, com documento, tem a ver com nascer naquela terra, crescer lá, cuidar dela e amá-la como parte de si. Steinbeck escreve de forma belíssima que quando as pessoas que dirigem os tratores e destroem tudo saem no fim do expediente, eles só entendem de trabalho e nada do que aquela terra realmente significa.

Esse é apenas um dos exemplos de reflexões maravilhosas que esse livro permite e, mais uma vez, eu não pude descrever nem 5% da sua verdadeira essência, por ser uma obra tão completa e tão densa e também pra não dar spoiler pra quem pretende ler.

Esse foi o meu livro de Fevereiro do Projeto 12 livros para 2018 (que você pode ver aqui) e, assim como A Insustentável Leveza do Ser, que foi o livro de Janeiro (resenha aqui), este se tornou uma das melhores obras que eu li na minha vida e, sem sombra de dúvidas, é um livro que merece 5 estrelas!

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