Precisamos falar sobre insegurança intelectual

abril 19, 2018


O tema de hoje é muito importante e precisa mesmo ser discutido. Comecei a pensar nele depois que vi a Sabrinna Rabelo, que está fazendo mestrado, comentar sobre o vídeo da Carol Miranda sobre o tema (você pode ver o vídeo aqui). Depois desse vídeo, comecei a ver outros, ler sobre o tema e passei a sentir a necessidade de discutir essa sensação de insegurança intelectual. Esse é um post pra mim também. Os conselhos que eu recolhi e estou escrevendo aqui são para todos nós!

Inclusive, a primeira coisa que precisamos estabelecer sobre o tema é que é mesmo uma sensação, mas que não traduz a realidade. Ser inseguro intelectualmente acontece quando você acredita estar em posição intelectualmente inferior com relação a outras pessoas. Você acredita que sabe menos, que não tem condições de conversar sobre certo tema, de opinar e se sente realmente inferior com relação ao seu intelecto.

Acredito que já tenha acontecido com muita gente de diversas formas. Por exemplo, quem nunca ficou intimidado na sala de aula por causa daquele aluno que sempre faz muitas perguntas, interage com o professor e demonstra saber muito mais do que você? Daí você sente como se não estivesse fazendo o mesmo curso que ele e, o que é pior, se te surgir uma dúvida que você considera elementar, vai deixar de perguntar ao professor porque a sua manifestação não será nada em comparação à do seu colega sabe tudo. Quem nunca?

No mundo dos concursos, quantas vezes você analisa um edital e pensa que não existiria jeito de você conseguir aquela aprovação? Quantas matérias na faculdade você achou que não passaria porque por falta de confiança na sua capacidade intelectual? E nas especializações, mestrados, doutorados, nas discussões sobre política, economia e temas afins, quantas vezes você teve a sensação de que estava muito atrás de todo mundo?

Acredito que durante toda a minha vida eu carreguei toneladas de insegurança intelectual e só agora descobri como nomear essa situação. Minha mãe SEMPRE me diz: "você não confia no seu potencial e não é possível que você não enxergue o tamanho dele". E ela tem toda razão. Durante toda a minha fase de estudante, sempre fiquei intimidada de fazer perguntas e parecer um questionamento estúpido.

Na graduação de Direito, nos primeiros semestres, vemos muitas matérias relacionadas às ciências sociais, políticas e afins. Alguns alunos na sala travavam intensas discussões com os professores, perguntavam várias coisas, enquanto eu ficava quieta achando que eu não teria condições de opinar. Não me ocorria que todos lá estavam no mesmo nível, começando uma graduação e que essa coisa de superioridade ou inferioridade intelectual é fruto das nossas mentes.

Agora na especialização de Filosofia e Teoria do Direito, como é virtual, não tenho momentos de sala de aula, mas acompanho os diálogos e discussões pelos Fóruns da PUC. Gente, a sensação por aqui é de constante inferioridade quanto às discussões que o pessoal sugere. Eu simplesmente leio meus textos, vejo minhas aulas, tenho dificuldades horrorosas em algumas unidades (tipo Aristóteles que eu penei pra entender). Quando eu entro no Fórum, tenho a impressão de que eu não sei nada.

Acontece que, ultimamente, eu tenho tentado aceitar de verdade que cada um tem o seu caminho, tem as suas predileções, tem o seu conhecimento, as áreas de estudo que se sente mais a vontade e que NINGUÉM É IGUAL A NINGUÉM.  Tenho tentado aceitar também que nós não somos super-heróis que precisam saber tudo, conhecer tudo, opinar sobre tudo.

Então, se você se enquadrou em algumas das situações que citei anteriormente, entra nessa atividade comigo. Como eu ia dizendo lá no começo, a sensação de inferioridade intelectual não passa disso: uma sensação. Você SENTE que é inferior, passa a acreditar no sentimento. Convenhamos, que se a gente forçar a racionalidade um pouco, você vai perceber que todos nós temos dificuldades e êxitos em diversos momentos da nossa vida. Vamos perceber também que uma sensação não é a figura da realidade, é apenas um sentimento e precisamos aprender a lidar com ele.

Diante de todas as áreas do conhecimento, possíveis e imagináveis, todas as vertentes de estudo do planeta, é impossível saber tudo. É realmente IMPOSSÍVEL! Então, você vai se deparar com temas que se sente mais confortável e com outros que não faz ideia do que está acontecendo. Mas lembre-se de algo muito importante: é assim pra todo mundo! Muito embora seja fácil sentir que fulaninho sabe de tudo e que ciclano consegue fechar todas as provas e conversar sobre tudo, isso é ilusão!

EXISTE ALGUMA FORMA DE TIRAR ALGO POSITIVO DA INSEGURANÇA INTELECTUAL?


No vídeo da Carol que eu comentei lá no início, ela diz que a gente deve aproveitar a sensação de não conhecimento para usar como estímulo para procurar sobre o assunto. Eu concordo com ela! Muito embora nem sempre seja uma tarefa fácil, podemos seguir por dois caminhos com relação a tudo que não temos: aceitar e seguir a vida ou fazer o possível para ter aquilo!

Quero te dizer uma coisa: não existe caminho errado aqui. Se existe um fulano na minha pós que AMA Aristóteles e quer MUITO saber TUDO sobre o pensamento dele, ele que vá. Eu prefiro dedicar minha atenção e estudo para Sócrates, por exemplo. E tudo bem! Eu não preciso me matar pra saber tudo. Cada um tem sua preferência. Como a Carol falou, se fulano quer saber tudo sobre formigas e outro sobre elefantes, tudo bem! Cada um segue para a área que prefere!

O ideal é que você decida as coisas que realmente quer se esforçar para saber sempre mais e seguir na caminhada para descobrir sempre mais sobre aquilo! Claro que se você está na graduação ou em algum local acadêmico, provavelmente você vai precisar passar por diversos temas, mas isso não significa que você precisa esgotar aquilo e descobrir tudo sobre aquilo, afinal, é o que dissemos, ninguém sabe tudo. 

Vamos apenas aceitar que cada um tem um caminho a seguir e sempre que você se sentir inferior por não saber nada daquilo, lembre que  aquela pessoa pode saber tudo sobre assunto x e nada sobre o assunto y. Eu, por exemplo, adoro falar sobre livros e sei algumas coisinhas sobre o tema. Você pode preferir falar sobre filmes porque tem uma vivência e um conhecimento maior quanto a isso. Só que de filmes eu não sei NADA. Ao invés de sairmos nós dois muito tristes de um diálogo, podemos aceitar que as diferenças são engrandecedoras e você vai me indicar filmes e eu vou te falar dos melhores livros que já li e todo mundo sai ganhando!

O PODER DA PERGUNTA!

A pergunta talvez seja o elemento mais importante para sedimentar um aprendizado e é o primeiro que deixamos de lado quanto nos sentimos inseguros intelectualmente. Dá pra contar nos dedos todas as vezes que fiz perguntas durante a graduação. Preferia chegar em casa, enfiar a cara no livro e tirar todas as minhas dúvidas sozinha!

Entretanto, entendo hoje que não foi o caminho mais inteligente. Voltando para a ideia de que não dá pra saber tudo, essa má impressão de que você não pode perguntar nada porque ninguém tem dúvidas, é uma pressão desnecessária e até cruel para colocar sobre os ombros. E sabe qual é a verdade? Muitas vezes VÁRIAS pessoas daquela sala possuem a MESMA dúvida e NINGUÉM tem coragem de perguntar!

Quando você firma um compromisso com o seu desejo de aprender, de ser melhor, de sempre adquirir mais e mais conhecimento, esses medos vão ficando para trás. Percebi isso outro dia quando finalmente decidi fazer uma pergunta no Fórum. Eu quero muito estudar pra valer a Filosofia do Direito e estou comprometida a fazer disso um processo de conhecimento que me trará bastante felicidade. Então, me recusar a perguntar por medo de me sentir inferior, seria como negligenciar o meu compromisso com o meu aprendizado e entendi que eu não posso fazer isso!

O processo de aceitação da sua capacidade intelectual do jeitinho que ela é um caminho de dentro para fora. Só que tem um ponto MUITO positivo nisso tudo: a capacidade intelectual NÃO é uma característica fixa e imutável. Ela é moldada por você através do estudo, da aquisição de conhecimento por diversas maneiras. Assim, se você deseja mudar algum aspecto dos seus conhecimentos, você pode. E você vai precisar fazer perguntas nesse processo de aquisição desse conhecimento, então, não vamos negligenciar as perguntas e dúvidas!

MAS E SOBRE A OPINIÃO?

Opinião significa modo de pensar, parecer, pensamento, maneira de ver e de julgar. Opinião não é conceito fixo fruto de mil anos de certeza. Não existe resposta certa quando o assunto é opinião. É exatamente por isso que não deveríamos nos sentir inseguros ao conceder a nossa ao mundo. Claro que com relação à opinião, é indispensável que vamos precisar de alguns cuidados, como não ser desrespeitoso ao expor um pensamento, como respeitar o posicionamento alheio também.

Entretanto, passadas as regras de respeito básico em um diálogo, são justamente as diversidades de opiniões que podem trazer crescimento pessoal e intelectual às pessoas. Se você é a favor da prisão do Lula, por exemplo, expõe com clareza a sua opinião e eu sou contra e exponho com clareza também a minha fundamentação, não há razão para que essa não seja uma excelente ode à diversidade política.

Ainda sobre a opinião, existe um outro ponto importante para discutir. Repita comigo: está tudo bem falar que não tem uma opinião formada também! Você não é obrigado a saber se posicionar a respeito de tudo, afinal, até para ter uma opinião a respeito de algo, é indispensável que você dedique tempo para conhecer as diversas vertentes daquele tema para decidir qual você irá defender. Então, caso você não esteja familiarizado, está tudo bem falar que não tem opinião formada sobre esse tema!

Aqui em casa, eu e meus pais discutimos sobre diversos temas e, justamente por causa da minha formação, geralmente discutimos bastante sobre política, economia, os rumos do país e tudo mais. Por vezes, respondo com muita tranquilidade que não tenho opinião formada sobre esse ou aquele tema específico. E tudo bem! Acredito ser muito melhor preferir pesquisar e conhecer bem antes de opinar do que falar o que não se tem certeza.

Entretanto, caso você tenha firmeza de seus ideais, sua visão de mundo, não se repreenda por causa de pessoas que veem o mundo de oura forma!

Acredito que o principal nesse post, de maneira geral, é que cada pessoa tem suas peculiaridades e suas facetas. Ninguém é igual, ninguém sabe tudo e a vida é um verdadeiro treinamento, em que cada um tem a oportunidade de seguir o seu caminho. Tendo entendido isso, vamos respeitar nossos próprios conhecimentos, o que adquirirmos até aqui, o que ainda iremos adquirir e isso não nos torna melhor ou pior que ninguém.

Diante de uma pessoa que pareça saber muito mais do que você, lembre-se da sua história, do que você sabe, do que você aprendeu. Use a vontade de saber mais como combustível, mas não se sinta inferior a ninguém. Aproveite para perguntar, para opinar, decerto que isso apenas te auxiliará no seu compromisso com seu próprio conhecimento.

Se ele sabe mais que você sobre o tema A, você provavelmente sabe mais do que ele sobre o tema B. Então, ao invés da insegurança, vamos cultivar a vontade de compartilhar, de tirar dúvida sobre o que não sabemos e de ensinar o que sabemos. Insegurança intelectual é uma sensação e nós não precisamos dela pra nada!

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