O sistema é bruto e as amizades são a única esperança: uma resenha de Ratos e Homens de John Steinbeck

fevereiro 16, 2018


Se eu te falar que eu sei como escrever algo sobre esse livro, estaria mentindo. Se eu não te contasse, você nunca ficaria sabendo da quantidade imensa de minutos que se passaram enquanto eu encarava a tela do computador e pensava em como explicar essa obra. 

Falaremos de um livro tão simples e pequeno, mas essas características prevalecem apenas se você analisá-lo de forma imediata e simplória. Entretanto, não é o que faremos, porque uma obra dessa não deve jamais ser negligenciada. Vamos falar de um dos melhores livros que eu li na vida e, assim como O Velho e o Mar (também um dos favoritos da vida), o enredo simples e curto não te isentam das profundas reflexões contidas nas entrelinhas.

Temos aqui dois personagens principais que formam uma dupla peculiar: George, um homem pequeno e muito sagaz e Lennie, um grandalhão, cheio de força, mas com a mente de uma criança.

O leitor consegue descobrir quase de imediato que eles estão na Califórnia, no período da Grande Depressão e estão a caminho de uma espécie de rancho, onde há promessa de emprego. Essa espécie de contexto me parece ser algo bem íntimo de John Steinbeck e ele descreve com muita sensibilidade o que retirantes e migrantes tiveram que passar durante a depressão econômica de 1929.

George está sempre resmungando e reclamando das encrencas que Lennie os coloca. No último emprego deles, tiveram que sair fugidos porque Lennie teria, supostamente, desrespeitado uma mulher. Na verdade, a mente infantil dele faz com que ele queira pegar e "agradar" tudo que parece bonito e agradável a seus olhos. Entretanto, o seu tamanho e a imensidão da força que possui faz com que suas condutas sejam má interpretadas.

Mente e corpo não andam juntos quando estamos falando de Lennie e cabe a George cuidar dele. E por mais que reclame, não consegue abandonar o amigo. Inclusive, há diálogos lindos em que George reclama e depois volta atrás para não ferir os sentimentos infantis de Lennie. 

Acontece que eles tem um plano: comprar uma terra só deles e produzir, viver da terra. Lennie seria o responsável por cuidar dos coelhos e só a ideia de realizar esse sonho já o deixa tão empolgado que ele faz com que George repita o tempo todo como será a terra que eles vão morar um dia.

Eles seguem para o rancho a procura de emprego e ao chegar lá veremos que existem diversos outros empregados que representam, em breve exposição e cada um à sua forma, os migrantes, retirantes, marginalizados e abandonados pela sociedade que vivem em busca do sonho de ter sua própria terra.

Temos o indivíduo desrespeitado por possuir deficiência, temos aquele que é completamente segregado por ser negro e é Lennie, com a ingenuidade de uma criança que não vê distinção entre nenhum deles. Todos semelhantes, com os mesmos sonhos e igualmente esquecidos e ignorados pelo sistema.

Entretanto, o que parece ser uma boa oportunidade para que essa dupla querida realize os seus sonhos (e você vai se pegar torcendo por eles), é também um ambiente muito propício para confusões. Temos o patrão que implica desde logo com Lennie e a esposa do patrão que acha Lennie intrigante e o que mais temos, na verdade, é a bruta dualidade entre o homem e o sistema, entre o rico e o pobre, entre os que possuem terras e aqueles que sonham em possuí-las.

A partir daí, queridos, é só surpresa, só lição e um final que é de dilacerar o coração de qualquer ser humano. O sistema continua sendo bruto, os sonhos continuam aguardando para serem realizados, a esperança segue cada vez mais fraca e você vai descobrir que é a amizade, em meio a tantas mazelas, que ainda vai fazer renovar a sua fé na humanidade.

Esta é uma obra de apenas 100 páginas. Vai te custar pouquíssimo tempo e dinheiro para ler este livro e, por tudo que eu disse até aqui, aconselho fortemente que você o leia. Os personagens são seres humanos de verdade, cheio de sonhos e de sofrimentos, retrato perfeito de alguém que passou pela vida e provou de seus frutos amargos. A experiência deles vai te servir não apenas como um livrinho de distração, mas como crescimento e engrandecimento pessoal!

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