Expressões da formação social e crueldade: uma resenha de Senhor das Moscas de William Golding

fevereiro 05, 2018


Eu sou formada em Direito e um dos pensamentos que mais me ocorreu durante o curso foi: e se não tivéssemos leis? Como seria o retrato de uma sociedade sem regras? Se as leis fossem abolidas de repente, nos lembraríamos, ainda que remotamente, da organização social que uma vez existiu?

Curiosamente, parece que William Golding resolveu me responder todas essas perguntas. Porém, com algumas peculiaridades e duas delas merecem destaque: ele não foi otimista , demonstrou a crueldade da natureza humana quando não existem regras e o autor representou através de crianças as expressões da formação social. 

Estamos na Segunda Guerra Mundial e um avião cheio de crianças de idade escolar cai numa ilha deserta e tropical, inicialmente convidativa, e os únicos sobreviventes são esses estudantes. Alguns são maiores, outros bem novos, os "pequenos", mas o mais significativo é: nenhum adulto sobreviveu!

No primeiro momento, verificamos que os garotos estão tentando se organizar, ainda da forma que conheciam na sociedade em que viviam antes. Elegem Ralph como líder, organizam as funções de cada parcela de garotos e determinam que todos podem falar, desde que obedeçam determinada ordem.

Curiosamente, o Autor destaca que Ralph foi eleito em função de ter "uma tranquilidade, ali sentado, que chamava atenção: também era alto e de aparência atraente [...]". Afinal, os garotos não tiveram tempo e maturidade para discutir as atribuições de um líder e por isso a aparência parecia ser suficiente.

Em sequência, somos apresentados a Jack, líder dos garotos responsáveis pelos caçadores. Eles deveriam alimentar os garotos perpetrar o único feito que era o mais importante para Ralph: manter uma fogueira no alto da montanha SEMPRE acesa, para que eles pudessem ser encontrados eventualmente.

Acontece que as discordâncias entre Ralph, o líder, e Jack, o que queria ser líder, começam a acontecer em função disto. Um prioriza a fogueira e o outro a caça. É o começo de todos os problemas!

Pra completar, outra temática envolve a trama: a possibilidade de existir um monstro na mata, visto por alguns dos garotos. Mais uma vez, Ralph e Jack possuem perspectivas diferentes sobre como lidar com a situação.

Portanto, no momento temos duas formas de liderança: a de Ralph, democrática e mais humana, preocupada com o bem dos menores e com o sinal de fumaça que tiraria todos da ilha; a de Jack, uma frente mais opressora, que se preocupa com a dominação da ilha, com a ascensão dos caçadores e a boa vida na ilha sem se importar com o amanhã.

Sobre os apoiadores, temos os caçadores sustentando o ideal da Jack. Eles são a maioria dos garotos que possuem idade, força, maturidade e discernimento para ajudar em qualquer trabalho. Do outro lado temos Ralph, acompanhado de Porquinho, a verdadeira demonstração do intelecto a racionalidade nesse livro, mas que era míope e de atributos físicos que não o permitiam estar apto para atividades físicas.

No meio dessa dualidade, temos o grupo dos pequenos, que são a representação do medo, da vulnerabilidade e da infância um pouco menos corrompida que a dos outros garotos. E, por fim, temos Simon, meu personagem favorito.

Simon era a criança que não discutia e fazia o que precisava ser feito. Essa frase descreve bem o que eu mais gostei nele. Ele gostava de Ralph e de Jack e, em meio aos ideais opostos, ele se oferecia para realizar atividades e, como vocês descobrirão ao ler o livro, por esta característica, foi protagonista das duas cenas mais marcantes do livro.

Dito isto, você já entendeu que uma liderança democrática e humana deu lugar a um grupo paralelo que queria o poder e era "dono" das principais vertentes da vida na ilha: a comida e a fogueira.

Diante de uma situação como esta, o autor nos apresenta como a briga pelo poder, o desrespeito às regras impostas e a liderança pelo medo e pela violência podem gerar consequências catastróficas. Não posso te contar muito além disso, mas posso dizer que o livro fica violento, grotesco, visceral e bastante assustador, principalmente por conter crueldades protagonizadas por crianças.

O livro revela algumas surpresas que vale muito a leitura e que vão te impedir de largá-lo antes de concluir. Entretanto, o que ficou de mais marcante pra mim foram as respostas aos questionamentos que fiz lá em cima. Pela ideia de Golding, uma vida sem regras, leis, liderança e direitos podem fazer com que a barbárie seja instaurada.

Fiquei muito reflexiva a respeito da crueldade humana e do que o confinamento faz com o homem. Ao me deparar com acontecimentos tão primitivos e reações tão violentas, me fez pensar que dificilmente as regras e uma sociedade que existiu em momento anterior poderiam ser lembradas. Com o passar do tempo, aquela organização que uma vez existiu é reduzida ao pó e os sentimentos mais primitivos são os que passam a valer.

O Senhor das Moscas é um daqueles livros que revela o homem pelo homem, sem idealizações e sem "passar a mão pela cabeça". É um soco do estômago para aqueles que romantizam a natureza humana. Você precisa descobrir o desenrolar desse enredo e eu recomendo fortemente que você leia esse livro e venha aqui refletir comigo.

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2 comentários

  1. Nossa, parece ser um livro profundo e educativo de se ler. Gostei da resenha, bem explicativa.

    Beijos
    http://orangelily.com.br/

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    1. Obrigada, que bom que gostou! Adorei seu blog!!!
      Beijos.

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