Arte que realmente imita a vida: uma resenha de Carta ao Pai de Franz Kafka

fevereiro 17, 2018


Em uma tradução livre e até meio tosca, a frase de Kafka estampada na foto diz mais ou menos o seguinte: você é ao mesmo tempo a quietude/silêncio e a confusão do meu coração. Caso você nunca tenha ouvido falar da personalidade e dos escritos peculiares de Kafka, pode até achar que é uma frase idealizada e romântica.

Entretanto, se você já teve alguma iniciação na leitura de Kafka, por menor que seja (como eu), você vai afastar logo a possibilidade de idealização e romantização da sentença. Digo isto porque não precisa ter lido a obra completa do autor pra saber que ele não perdia a oportunidade de escrever sobre os aspectos miseráveis da natureza humana, sobre o que temos de pior.

Minha experiência lendo Kafka começou por A Metamorfose, um dos textos mais famosos do autor. Fiquei abalada com tamanha realidade, crueldade, violência e rancor que ele deposita em prosa, mas ao mesmo tempo me impressionei que ele descreve como se nada de estranho estivesse realmente ocorrendo. Em breve e estranha exposição, seria como se você estivesse tomando sucessivos socos no estômago e isso fosse a coisa mais normal do mundo.

Só por isso, percebi de cara que eu estava lendo a obra de alguém com indiscutível talento e sagacidade. Entretanto, a primeiríssima coisa que me passou pela cabeça ao ler A Metamorfose foi: certamente existem aspectos na vida pessoal de Kafka que influenciam seus escritos. Não me saía da cabeça que ele deveria ter passado por algo terrível para ser tão visceral, violento e grotesco em sua escrita. Depois, li alguns contos dele em Um Artista da Fome e essa impressão apenas foi reforçada.

Falei tudo isso antes de entrarmos de fato em Carta ao Pai para você entender algo. Carta ao Pai foi a explicação que eu precisava para entender Kafka. Como eu disse, a escrita dele e seus reflexos da vida me pareciam tão perturbadores, que eu queria entender Kafka. Bom, não acredito que eu tenha esgotado todo o entendimento sobre ele. Nem sei se esgotar é algo possível. Entretanto, esse livro trouxe algum esclarecimento.

Carta ao Pai, como o nome sugere, foi uma carta que Kafka escreveu para seu pai e nesta oportunidade ele relata toda a angústia que o relacionamento com o pai lhe proporcionou. Ele descreve histórias grotescas da sua infância, o peso que a personalidade do pai depositava nele e na família inteira, além de outros episódios que ocorreram ao longo de toda a sua vida. 

Vamos destacar alguns pontos curiosos da Carta!

Kafka inicia a carta respondendo uma pergunta e desse questionamento é que surge um fluxo infinito de informações. O leitor realmente tem a impressão de que ele sentou e escreveu, escreveu e escreveu como se fosse a última coisa que faria em vida.

"Você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. Como de costume, não soube responder, em parte justamente por causa do medo que tenho de você, em parte porque na motivação desse medo intervêm tantos pormenores, que mal poderia reuni-los numa fala. E se aqui tento responder por escrito, será sem dúvida de um modo muito incompleto, porque, também ao escrever, o medo e suas consequências me inibem diante de você e porque a magnitude do assunto ultrapassa de longe minha memória e meu entendimento".

É impossível não perceber que o texto já se inicia com extrema exploração do medo. Ao longo da carta, Kafka faz questão de destacar que a culpa, além do medo, o impedia de viver, o que o levou a uma infância infeliz por estar sempre num círculo mais íntimo, estrito e sufocante da influência do pai. 

Pelos relatos da Carta, a família vivia em dois pólos distintos: o pai de um lado, a mãe, Kafka e os irmãos do outro. O pai gostava que essa fosse a estrutura e se autoafirmava como juiz, mas o filho o considerava como uma parte tão fraca e ofuscada como o restante da família.

Além dos relatos chocantes de sua infância (que você terá que ler para descobrir), Kafka relata que tentar se separar do pai era uma tarefa interminável e que as suas relações externas à família também era prejudicadas pela sensação de culpa advinda das crescentes críticas do pai. Ele descreve como "desconfiança permanente de mim e medo permanente dos outros".

Alguns comentários de Karka a respeito de como ele via o pai são muito curiosos. Em um deles, o autor conta que imagina um mapa-múndi aberto e o pai estendido transversalmente sobre ele. Nessa realidade, Kafka conta que se interessava apenas pelas regiões que o pai não cobria e que não estaria ao alcance dele.

Curiosamente, a literatura e escrita passaram a representar pequenas tentativas de fuga e independência. Neste ponto, a carta foi extremamente esclarecedora pra mim, porque Kafka relata que seus escritos eram para seu pai de uma forma ou de outra e o trecho que ele fala sobre isso, vale a leitura:

"Com a sua antipatia você atingiu, de modo mais certeiro, a minha atividade de escritor e as coisas relacionadas com ela, que lhe eram desconhecidas. Aqui de fato eu me havia distanciado com certa autonomia, embora lembrasse um pouco a minhoca que, esmagada por um pé na parte de trás, se liberta com a parte dianteira e se arrasta para o lado. De certa maneira eu estava em segurança, havia um sopro de alívio, a aversão que naturalmente você logo teve pelo que eu escrevia foi neste ponto excepcionalmente bem-vinda. É fato que minha vaidade e minha ambição sofriam com a acolhida que dava aos meus livros, famosa entre nós: “Ponha em cima do criado-mudo!” (em geral você estava jogando baralho quando chegava um livro), mas no fundo eu me sentia bem com isso, não só por uma maldade que se insurgia, não só por júbilo com uma nova confirmação do modo como eu concebia a nossa relação, mas sim porque, bem na sua origem, aquela fórmula soava para mim mais ou menos como: “Agora você está livre!”. Tratava-se, é claro, de um engano: nem eu era livre nem, no melhor dos casos, ainda não o era. Meus escritos tratavam de você, neles eu expunha as queixas que não podia fazer no seu peito. Eram uma despedida intencionalmente prolongada de você; só que ela, apesar de imposta por você, corria na direção definida por mim. Mas como tudo isso era pouco! Só vale a pena falar a esse respeito porque aconteceu na minha vida, em qualquer outro lugar essa atividade não seria absolutamente notada, e mesmo assim porque dominava minha vida, na infância como pressentimento, mais tarde como esperança, mais tarde ainda como desespero, ditando-me — se se quiser, novamente de acordo com o seu figurino — minhas poucas e pequenas decisões".

Esta carta talvez seja o texto mais indigesto e difícil que já li. Se ele não levou esse título, pelo menos divide o podium com as outras leituras de Kafka que eu fiz. Mas, acima de tudo, foi esclarecedor. Como eu disse, permitiu que eu entendesse um pouco dos infortúnios da vida do autor e que, certamente, motivou e inspirou grande parte de seus escritos.

A carta foi escrita em novembro de 1919 quando Kafka tinha 36 anos, 5 anos antes de sua morte. Sabemos que esse texto jamais chegou ao pai do autor, muito embora ele quisesse que a carta atingisse seu destinatário.

Este texto possui muitas outras peculiaridades não descritas aqui. Kafka fala sobre suas oportunidades de casamento arruinadas, sobre cada um de seus irmãos e a forma como o pai atingiu a cada um de forma individualizada. 

O desfecho é algo singular e tão esclarecedor quando o restante da carta. Segundo Kafka, trata-se de um texto tão próximo da realidade que tem a finalidade de trazer tranquilidade tanto ao pai quanto ao filho, podendo tornar vida e morte mais leve para ambos.

Eu não saberia dizer se leve é a palavra certa para descrever esse texto, mas certamente a carta funcionou como uma espécie de "fechamento" para Kafka e a experiência de leitura de algo tão íntimo na vida do autor ajuda realmente a compreendê-lo da forma mais pessoal possível.

De repente, Kafka é Gregor Samsa e todos os outros personagens que ele escreveu e que eram perseguidos, torturados, marginalizados e, finalmente, abandonados por algo ou alguém que se apresentava como superior a ele. E esse alguém, na vida que foi imitada pela arte, era o pai.

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