O Eterno Retorno de Nietzsche e a filosofia das relações interpessoais: uma resenha de A Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera

janeiro 30, 2018


Projeto 12 livros para 2018 - Livro 1 (Janeiro)

Quando você pensa na vida ideal para você, o que vem na sua mente? Você idealiza uma vida com alguém, bons sentimentos, tranquilidade e paz interior? Vou te dizer o que eu imagino pra mim. A vida ideal seria aquela em que minha família é feliz, em que eu consigo inspirar pessoas e consigo ser a melhor versão de mim todos os dias.

Independente do que você idealiza, sejam seus anseios parecidos com os meus ou não, eu posso apostar que eles tem algo em comum: a leveza! Na vida ideal, geralmente deixaríamos de lado tudo que é pesado. 

Mas sem o peso, a vida deixa de ser vida e a leveza, as vezes, é insustentável! 

Se estivéssemos todos fadados a repetir eternamente todos os nossos atos, talvez seria mais fácil observar que a leveza não necessariamente é boa e o peso nem sempre é ruim.

Pode parecer bastante filosófico e realmente é, mas essa é uma premissa curiosa e é uma das milhares de discussões que esse livro proporciona. Talvez ele tenha um dos títulos da literatura mundial que mais se harmonize com a filosofia do livro. Sem contar que, só do título você já se pega apreciando sua beleza e pensando: como poderia a leveza do ser ser insustentável?

Somos programados pra pensar que o peso é que é insustentável e a leveza deveria ser - perdoem a redundância - leve.

Já vou te adiantar que esse livrinho vai brincar com todos esses conceitos de forma tão genial e você vai conseguir perceber que nem tudo é preto no branco, mas que, na verdade, vivemos dentro de uma gigantesca área cinza, na qual é possível se reinventar e reconstruir todos os conceitos que você achava que eram fixos.

Dito isto, vamos ao livro.

Trata-se de uma narrativa extremamente desconexa em que nosso narrador inicia falando sobre o Eterno Retorno proposto por Nietzsche. Ele classifica como "mito insensato" essa ideia de que um dia todos os fatos se repetirão indefinidamente. Para o nosso narrador, o efêmero não poderia ser condenado e as coisas perderiam sua fugacidade, afinal tudo se repetiria pra sempre.

Com base na eterna repetição de tudo, Nietzsche dizia que o Eterno Retorno é o mais pesado dos fardos, mas ao mesmo tempo, cada fato seria dotado de infinita leveza, pois fadado a se repetir. O fardo nos torna mais próximos da terra, da vida, tendo em vista não haver vida sem peso, ao passo que a leveza nos afasta da realidade e torna cada ato tão livre que chega a ser insignificante.

Então, entre possuir o fardo de uma vida real e a leveza de ser insignificante, com qual você ficaria? Percebe que os conceitos já mudaram de posição? Eles brincam com você durante toda a obra e isso fez dela uma das coisas mais incríveis que eu já li!

O narrador nos diz que essa contradição entre o leve e o pesado é a mais ambígua e misteriosa de todas as contradições.

Ainda assim, temos quatro personagens principais que vão conferir pessoalidade a tudo que a gente conversou até agora. Vamos aos personagens então.

Tomas e Tereza se conheceram por causa de 6 eventos inesperados e bem definidos. Para ele, Tereza era como uma criança abandonada numa cesta e ele não poderia deixar uma criança à deriva. Ele quebrou muitas das suas regras e do seu estilo de vida sob a suposta justificativa de que a amava.

Para Tomas, amor e sexo eram coisas diversas. Amava Tereza e isso significava que tinha desejo de compartilhar o sono com ela, mas tinha desejo sexual que pertencia a diversas mulheres. Era a sua justificativa para as inúmeras traições das quais Tereza sabia e sofria com profundo ciúme. Ele casou com ela para compensar sua vida noturna, mas nunca abandonou os velhos hábitos.

Neste ponto, é indispensável saber que a história se passa na Tchecoslováquia em plena Primavera de Praga, período de liberalização política e defesa das liberdades individuais, que terminou com a invasão russa em Praga.

A participação dos intelectuais foi relevante para o suporte do movimento, como sempre o é. Tomas, sendo médico, visto como pessoa esclarecida, estudada, possui opiniões bem definidas a respeito do movimento. Tereza, vê-se envolvida com a fotografia e encontra profundo sentido ao fotografar a invasão e todo o retrato da miséria que recaiu sobre Praga.

A verdade é que Tereza foi criada num ambiente degradante e, por motivos que vocês saberão ao ler a obra, desenvolveu resistência à ideia de ser só mais um corpo no mundo, só mais um ser. Sua vida sendo esposa de Tomas e fotografando eventos políticos relevantes, parecia ser algo que a agradava.

Ocorre que o cenário político os forçou a sair do país e este ponto da história é realmente um divisor de águas para os personagens. Ela perdeu a oportunidade de fotografar o que amava, mas a mudança não mudou a profissão de Tomas e nem impediu que ele continuasse com as traições.

Ele era a leveza, perfeita representação da liberdade e ela não pôde suportar a ideia de ser o peso que arruinaria a vida dele. Por isso, ela o abandona e retorna para Praga. Essa foi a fuga para deixar de ser o peso.

Do outro lado, temos Sabina e Franz. Ela, artista, sensível e independente, por motivos que vocês descobrirão, sente-se muito a vontade com a traição. Trai a família e qualquer relacionamento que possua, com a mesma liberdade da qual Tomas é dotado. Os dois, inclusive, mantinham relações frequentes.

Franz, por sua vez, traía a esposa com Sabina e isso trazia profundo descontentamento para ele, no sentido de estar sendo desonesto. Percebe que temos dois opostos mais uma vez? Ela é a leveza e a liberdade e ele representa o peso. Aquilo que faz ela muito feliz e incluída - trair - é o fardo que ele carrega.

São tão opostos que o Autor fez algo incrível: separou uma parte do livro com "léxicos de palavras incompreendidas", em que algumas palavras eram explicadas nas concepções dos dois personagens, sempre tão opostos. Nos faz pensar que não há formula correta ou única interpretação para nada. Kundera e a beleza da subjetividade!

Franz decide contar para a esposa sobre a traição e jura viver a vida em paz com Sabina. Passou a ser leve, pois não era mais desonesto. Deixou seu fardo! Entretanto, Sabina que era leve por causa da traição, ao perceber que não traía mais, passou a ser peso. Decide fugir também. Diferente de Tereza, a fuga dela foi para voltar a ser leveza.

Essa é a brevíssima exposição dos personagens e do enredo. O restante é composto por profundas reflexões filosóficas, cenas escritas com maestria e muitos outros acontecimentos que te farão questionar se estamos mesmo fadados a repetir todos os nossos atos, te farão pensar em como a leveza pode ser incômoda e em como o peso pode ser relativizado.

Kundera criou um retrato tão magnífico da filosofia na relação entre os seres humanos, além de ter escrito uma obra capaz de fazer o leitor questionar o seu modo de enxergar a vida. Derrubei velhos conceitos, coloquei outros no lugar, me apaguei a esses personagens e, por incrível que pareça, me identifiquei muito mais com o peso do que com a leveza.

Talvez a minha ideia de vida ideal que eu falei lá no início deva ser reformulada. A vida real é repleta de fardos que nos torna quem somos e, sem eles, seríamos mesmo insignificantes. Todo mundo tem pesos que carrega por aí e tem levezas e liberdades. Os dois representam o equilíbrio essencial para viver e, certamente, ter apenas um deles, seria insustentável.

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