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domingo, 4 de junho de 2017

Texto - Queria que você soubesse...




A estrada ia se alongando à minha frente. Meus pensamentos pareciam seguir o mesmo caminho. Cada vez mais tortuosos, impiedosos, iam sempre para o mesmo lugar. Nossa mente tem dessas coisas, gosta de pregar peças e nos fazer imaginar situações que, na verdade, não existem de verdade.

Ainda faltavam cerca de 4 horas pra chegar ao destino da viagem, ainda tinha muita estrada para se alongar e muito pensamento também. Era feriado no mundo, mas do lado de dentro, não havia férias ou folga. As engrenagens da mente, funcionando a todo vapor, indo sempre para o mesmo lugar.


Aprendi o valor do meu tempo recentemente. A vida adulta tem disso, faz a gente entender certas coisas como a otimização do tempo, a importância de ter ideais, o real valor dos sonhos. Por causa disso, eu ando prestando atenção em que eu gasto meu tempo.

Percebi que eu precisava fazer algo com todo esse tempo livre de viagem. Talvez, ficar olhando constantemente para aquele céu azul, sem nenhuma nuvem, tenha me dado a impressão de que tudo ficaria bem. Talvez, ficar olhando para a estrada, que só aumentava, tenha me dado a certeza de que eu preciso ter um lugar pra ir. Talvez minha mente tenha me pregado mais uma peça. Mas o que aconteceu em seguida, eu vou te contar. 

Eu coloquei Luís Kiari nos meus fones. "Prezo por você, preso a você, peço um favor. Por amor, por Deus, prenda-se a mim". "Eu já vou, mas levo você e o caminho". "Eu nunca vou te deixar, eu não vou desperdiçar o que não foi, o que se vai de nós dois, o que ficou de você".

Talvez, além do céu, da estrada, da minha mente (que definitivamente não está do meu lado, mas do seu), as músicas de Kiari me convenceram a te falar como eu me sentia.

Eu nunca tinha me permitido ir tão longe. Decidi que ia guardar pra mim os sentimentos que eu não entendia. Acontece que dessa vez eu tinha a permissão do céu, da estrada, da música, das 4 horas de viagem restantes. Quem era minha racionalidade perto de todos esses elementos? Vou te dizer, não era nada. Estava tudo do seu lado e nada do meu.

Só me restou fazer um pacto com a estrada, de que eu escreveria tudo que queria te falar e ela guardaria esse segredo, porque naquele momento ele deixava de ser só meu. Fiz um pacto com o céu azul, de que eu clamaria por socorro sempre que essa nossa história me confundisse muito. Fiz um pacto com o tempo também. Era o mais difícil, porque eu pedi para o tempo se arrastar até o dia que eu tivesse coragem de te contar tudo isso. Só pra não parecer que eu perdi muitos dias sem saber se você sentia o mesmo que eu.

Pactos feitos e aceitos por todas as partes, te imaginei na minha frente e comecei a escrever como se estivesse falando com você. 

Aí vai o texto original que escrevi naquele dia:

Eu preciso ser feliz. No momento, eu não sei exatamente como fazer isso. Acontece que, por alguma razão, eu me seguro numa ideia e eu preciso saber como me livrar dela, porque vai ser impossível eu ser feliz enquanto ela estiver ali no fundo de cada pensamento meu. Tem alguma coisa a ver com a sua mente que funciona mais ou menos como a minha. Tem a ver com o jeito que você fala e, principalmente, com o seu jeito de sorrir, olhando pra baixo e evitando o inevitável contato visual. Não sei se eu deveria sentir isso, mas tem a ver com seu gosto musical tão próximo do meu. Tem a ver com os livros, clássicos, contemporâneos e romances policiais. Tem a ver com o arroz e o cuscuz. Tem a ver com acreditar no Deus bondoso e inexplicável que a gente acredita. Tem a ver com a sintonia dos meus sonhos, que se antecipam sempre que você está prestes a falar comigo. Tem a ver com minhas músicas autorais que ninguém ouviu. Tem a ver com a rima, as edições de livros, o amor por viagens. Tem a ver com as trocas de indicações, a alma idosa no corpo jovem e com a crença na gentileza. Tem a ver com as multifacetas que formam a minha personalidade e que também formam a sua. Tem a ver com alma, empatia, sintonia e todas essas conexões sobrenaturais que o homem não conseguiu desvendar ainda. Tudo isso, esse tanto do seu ser que é do meu também, me fizeram ter essa ideia. A ideia de que nossas duas metades sendo um inteiro seria incrível. Essa ideia de que as pessoas olhariam e reconheceriam com facilidade que somos partes da mesma matéria, da mesma crença, da mesma fé. "Eles realmente combinam", eles diriam. "Eles podem mudar o mundo juntos", eles diriam. "Olha como eles são incríveis juntos", eles reconheceriam. Essa ideia não me permite seguir em frente. Toda as vezes que eu tento, ela me perturba, como uma voz que diz: "você está deixando algo passar", "você pode até ser feliz, mas sempre vai faltar algo". É aquele "e se?" que me faz pensar duas vezes sempre que eu tento te deixar pra lá. É que eu tenho tanto medo do que eu não entendo ou não consigo controlar. E por isso eu tentei, várias vezes, te deixar pra lá. Mas como eu poderia fazer isso? Seria o mesmo que desistir daquela sensação maravilhosa de receber uma música ja sabendo, antes mesmo de ouvir, que eu iria gostar. Seria o mesmo que desistir dos sorrisos que eu dou sempre que você avalia algo com palavras novas e de sonoridade engraçada. Seria como desistir dos sinais que meu subconsciente desenvolveu pra avisar que você vai estar perto, mesmo que de longe. De certa forma, desistir de você seria como desistir de uma partezinha de mim e sempre percebo que não posso fazer isso.  Quer saber o que eu acredito secretamente? Que "nossa mera distância é só querer", que "você me bagunça e tumultua tudo em mim" e que todas as músicas que a gente já trocou, como figurinhas de álbuns, ja disseram tudo que eu tô me enrolando toda pra dizer e, você sabe, "odeio me embananar, minha timidez é como meu amor veio para ficar". A questão é que eu acredito nessa ideia e eu sei que é apenas isso, coisa da minha mente, que você nunca deu qualquer parecer ou reação de que seria real. Mas não tenho muito controle sobre a minha mente, sabe? E ela fica me lembrando dessa ideia. Por isso, antes que eu enlouqueça de vez, queria te dizer essas coisas, confiando que a sintonia, empatia, conexão entre as nossas mentes já tenha feito, pelo menos uma vez, passar essa ideia pela sua cabeça também. 

Terminei de escrever, ainda faltavam  pelo menos umas duas horas de viagem. Esse tempo restante, assim como o feriado inteiro e a duração da viagem de volta, me fizeram pensar no que aconteceria se eu te mandasse isso. Nenhuma das possibilidades me fez ter coragem. Por isso, reforcei meus votos com a estrada e com o céu. 

Todos eles cumpriram sua parte na barganha. A estrada guardou o segredo. O céu nunca me recusou socorro durante todas as vezes que eu clamei, justamente pelo fato de essa história estar sempre me atordoando. 

Só que o tempo não cumpriu a parte dele. Ele deveria passar devagar pra gente não perder muita coisa nesse período separado. Ele fez o contrário. Voou, como se não tivesse qualquer pacto comigo. E eu fiquei com medo. Medo da vida passar, medo de ficar fadada a reviver teu jeito pra sempre em minha cabeça, medo do que a palavra "nunca" significa, medo do meu medo.

Já que o tempo me traiu, vou quebrar meu combinado com a estrada e colocar esse texto aqui para que milhares de pessoas no mundo, inclusive você, talvez, possa lê-lo e, quem sabe, se identificar. Dessa constante quebra de pactos, só espero que o céu continue me dando o socorro prometido porque, ao que me parece, eu vou precisar.


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