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sábado, 12 de dezembro de 2015

Mente para mim - Parte 2



PARA LER A PARTE 1 CLIQUE AQUI.


Caro leitor, escute essa música durante a leitura: Falling Slowly - Glen Hansard, Marketa Irglova


- Paris??? Como assim Paris??? - Sofia gritava e afundava a cabeça entre os joelhos na esperança de não ouvir mais aquela voz.

- Paris. Paris, na França - Pedro respondeu irritado e ansioso por respostas.

Ela começou a chorar. Já tinha problemas demais, cada dia era uma batalha particular e a vida era a sua guerra pessoal. Só a hipótese de um novo problema já a deixava em vias de perder a sanidade. E talvez tivesse perdido mesmo, ela pensava, já que conseguia ver a França e ouvir uma pessoa que estava lá sem nem sair do seu quarto. Se isso não era insanidade, ela não sabia o que seria.

No instante em que ela começou a chorar, ele sentiu. Sentiu tudo que é familiar quando temos vontade de chorar. A voz embargada, coração apertado e os olhos marejados. Questionou quando aquele pesadelo ia acabar. Não bastava ele ver e ouvir uma pessoa que estava do outro lado do mundo, tinha que sentir o que ela sentia também? Pedro percebeu que precisava acalmá-la para o bem dos dois e então tentar descobrir o que estava acontecendo. E assim ele fez.


- Olha só, me diz o seu nome! - ele iniciou, mas não obteve respostas.

- Ei, você consegue me ouvir? - Pedro continuou, mas não teve resposta mais uma vez.

- Será que isso acabou? - ele falou em voz alta, já sentindo o alívio querendo dominar seu corpo.

- Não acabou - Sofia respondeu - Eu estava em silêncio tentando não me desesperar, até que senti o seu alívio daqui e vi que a situação era ainda mais crítica do que eu temia.

Mais uma vez a garota se derramou em lágrimas.

- Vamos fazer o seguinte - Pedro retornou à conversa - você começa me falando o seu nome e se acalmando, já que pelo visto compartilhamos sentimentos também.

- Meu nome é Sofia - ela falou, enxugando as lágrimas que insistentemente escorriam pelo seu rosto.

- Meu nome é Pedro. Me diga algo, Sofia, o que você estaria fazendo agora se esse fosse um dia normal?

- Eu estaria indo trabalhar - ela continuava de forma objetiva.

- Em que você trabalha? - questionou o rapaz.

- Sou babá de duas crianças.

- Legal! Bom, é evidente a sua falta de interesse nessa conversa, mas vou fingir que você me perguntou o que eu faço da vida e vou responder pra matar sua curiosidade - ele disse de forma leve e conseguiu arrancar um sorriso dela.

- Desculpa - Sofia disse - eu costumo ser mais agradável, mas eu realmente estou nervosa. Odeio as coisas que eu não consigo controlar e aparentemente tudo na minha vida tem fugido do meu controle.

- Você está odiando a sua vida, então.

- Basicamente isso. Mas mate a minha curiosidade, por favor - ela disse, entre um sorriso e outro - o que você estaria fazendo hoje? Aliás, deixe-me adivinhar, está tomando um café no melhor estilo francês, em frente a um dos monumentos que QUASE virou uma das sete maravilhas do mundo.

- Ahh, ela tem senso de humor, quem diria - ele brincou e já não conseguia conter o riso - imagino que você esteja se gabando porque o Cristo Redentor virou uma das sete maravilhas do mundo moderno, enquanto a Torre Eiffel chegou a ser finalista, mas não entrou para o rol.

- É exatamente disso que estou falando - ela pirraçou.

- Então quer dizer que você é daquelas cariocas que acha que não há lugar no mundo melhor que o Rio de Janeiro, não é?

- Sou daquelas que não conhece qualquer outro lugar no mundo. Prefiro apreciar o que tenho. Na verdade, preciso apreciar o que tenho.

Sofia respondeu com o peso habitual que ela carregava pela vida afora. Os sorrisos já tinham ido embora, a felicidade era um luxo que ela não tinha como pagar. E ele sentiu, porque estavam conectados por alguma razão desconhecida. Os sentimentos de um agora pertenciam aos dois. Eles também se pertenciam, embora ainda não soubessem disso.

- Desculpe se esse era um assunto delicado - ele falou suavemente.

- Não precisa se desculpar, tudo tem sido delicado esses dias, mas a culpa não é sua. Então me conta, eu acertei quando disse que você estaria tomando café e apreciando a vista de Paris?

E ele contou que estava mudando os rumos da sua vida. Sempre fez o que seu padrasto queria, por isso se formou em Ciências Políticas e em Direito, estudou diversos idiomas e trabalhava na companhia dele. Não foi ruim, na verdade fez com que tivesse diversas experiências incríveis e adquirisse toneladas de conhecimento, mas seu sonho não era aquele. Disse pra ela como se a conhecesse há décadas que queria tomar o controle de sua vida e era pra isso que ele estava ali naquela manhã.

Ela brincou dizendo que deveria ser muito fácil tomar o controle da sua vida sentado de frente para a Torre Eiffel e que se isso era ter controle, ela também queria. Ele sorriu com a forma dela de falar. A música ainda estava tocando e eles conversaram por horas. Ele certamente mudou os rumos de sua vida e ela com certeza perdeu o trabalho, mas nenhum dos dois tinha reparado nisso.

E então foi a vez dela de falar. Contou a ele que trabalhava durante o período da manhã até o final da tarde e que a noite ia para a faculdade. Estudava Letras e Literatura na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Ele se encantou com a informação, já que seu sonho era escrever.

Mais algumas horas se passaram enquanto eles falavam sobre os livros que já tinham lido e as interpretações e sensações que tiveram ao ler cada um. Descobriram que tinham muito em comum, além do amor por livros, porque gostavam das mesmas músicas, das mesmas comidas, dos mesmos filmes. A diferença era que ele sempre tinha uma experiência magnífica sobre todas as coisas. Leu tal livro no avião enquanto ia passar as férias na Itália. Ela leu o mesmo livro no ônibus entre o trabalho e a faculdade. Ele via os filmes nas dezenas de cinemas espalhados por Paris, enquanto ela assistia no trabalho enquanto as crianças dormiam. Ele tinha primeiras edições de clássicos da literatura e ela pegava emprestado as edições rasgadas na biblioteca pública. Mas ele não a diminuía por isso e ela não o achava esnobe pelas oportunidades que teve. Fizeram funcionar, de alguma forma.

- Você ainda consegue ver aonde estou? - ele perguntou.

- Não. Foi só naquele momento. Mas sinto que posso conseguir se me concentrar - respondeu Sofia.

- Também sinto isso. Acho que poderíamos refinar essa habilidade - sugeriu o rapaz.

Passaram os momentos seguintes descobrindo como enxergar o que o outro estava vendo. Não demorou até que tivessem perfeito controle de suas novas condições.

- Obrigada por isso - ela falou, com os olhos novamente marejados.

- Está me agradecendo por qual motivo exatamente? Por entrar na sua cabeça? - ele respondeu, tentando fazê-la sorrir, mas ciente de que o peso que ela carregava estava ali novamente.

- Por me mostrar a França. Nunca achei que poderia vê-la.

- Você só viu uma parcela muito pequena. Meus olhos são os seus agora. Te mostrarei o mundo!

- Obrigada, de verdade.

- Não achei que fosse mentira! - ele disse, sorrindo.

- Você sempre faz piadinha de tudo? - Sofia questionou.

- Não, mas quando eu acho que você está se divertindo, sinto esse peso retornando e estamos novamente na estaca zero.

- É porque o peso tem sido a minha companhia. Espero poder substituí-lo por você agora. Mas ainda quero saber o que está acontecendo conosco.

- Você pode e vamos descobrir - ele assegurou.

- Mas me diga algo, Pedro. O que exatamente você  pretende fazer pra tomar o controle da sua vida?

- Vou escrever um livro. Na verdade, quando começou a tocar The Lumineers eu tive uma ideia incrível sobre a história.

- Curioso porque eu coloquei pra tocar The Lumineers aqui no meu quarto. Deve ter sido o primeiro contato.

- Ligados pela música - ele sugeriu.

- Faz sentido - ela respondeu enquanto sua mente repassava por todas as novidades daquele dia.

- Quer ouvir sobre a minha ideia?

- Você pode me contar? - ela questionou.

- Acredito que temos a mesma mente e os mesmos olhos de agora em diante, senhorita. Não faz sentido esconder.

- É verdade. Quero ouvir.

- Então, a ideia veio da música mesmo. As primeiras frases dizem: "eu tenho tentado fazer o correto, eu tenho vivido uma vida solitária [...] então me mostre uma família e todo o sangue que irei sangrar, eu não sei onde pertenço".

- Me identifico tanto com essa letra - ela adicionou.

- Pois é, eu também. Daí segundos antes de eu ver o seu quarto e você começar a gritar, eu pensei em escrever algo profundo, perturbador e reflexivo. A história de uma garota que foi abusada sexualmente na infância e precisou fugir de casa, lidar com as adversidade de um mundo cruel e superar todos os seus próprios limites. O que você achou?

Silêncio.

Segundos passando.

Mais silêncio.

- Sofia, você está aí? - ele questionou, já preocupado.

- Como você sabe a minha história?


FIM DA PARTE DOIS 

2 comentários:

  1. Carambaaaaa, que história! Preciso saber o final!

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    1. Obrigada, Isla. Eu adorei seu blog :D Fica ligadinha aqui no blog todo sábado que tem uma parte nova de Mente para mim! Bjsss.

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