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sábado, 5 de dezembro de 2015

Mente para mim - Parte 1



Ela andava pelo centro do Rio de Janeiro sozinha e sua mente vagava. Pensava em como estava cansada daquele fio de esperança que a fazia acreditar que as coisas iam melhorar. Estava cansada de tentar. Estava cansada de acreditar no ser humano. Estava cansada de estar cansada.


Ela tinha aberto mais que o seu coração dessa vez, porque abriu a sua mente. As pessoas dão muita importância ao que está no coração, toda aquela carga de sentimentos e reações, quando, na verdade, está tudo na sua cabeça. Sua mente é o seu bem mais precioso, já que nela está tudo que você sabe ou acha que sabe sobre o mundo, sobre você e sobre as pessoas.

O amor era um jogo de perdas e ela conhecia do assunto. Sentia-se uma mulher menor do que estava destinada a ser, mas sabia que sua mente estava fechada para qualquer intruso dali pra frente. E quanto ao coração, ela sentia que ele tinha sido reduzido a pó. Apesar dessa sensação, ele mantinha batidas ensurdecedoras e as vezes parecia que ia sair da caixa torácica.

Sua mente vagava, mas seu corpo não. Ela sabia exatamente para onde estava indo. O destino era uma pequena casa apagada e velha, que se escondia pelos comércios do centro do Rio. Caminhava a passos largos e quando chegou na pequena porta de madeira que era seguida por uma escada escura, ela exitou. No entanto, disse a si mesma: "você está no controle agora". Então ela subiu.

Só que ela não estava no controle e não estaria nunca mais depois de passar por aquela casa. Mulheres eram usadas naquele local. No auge de seus desesperos, ela e outras como ela iam até lá entregar suas intimidades, seus corpos, pelo dinheiro que nunca seria suficiente para cobrir suas dívidas ou seus problemas. O controle nunca seria recuperado depois que ela subisse as escadas e deitasse na cama empoeirada para o sexo mais indesejado da sua existência.

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Ele estava sentado na sala aconchegante da casa de sua mãe a espera de seu padastro. Trazia nas mãos o seu trabalho dos últimos meses, mas não pensava nisso naquele momento. Bebia algo forte, observava o Rio Sena pela janela e pensava que, se seu coração estivesse em paz, conseguiria apreciar melhor a beleza de Paris.

Lembrou-se de quando sua mãe casou-se com um investidor francês muito rico e conservador e eles partiram de mudança do Brasil para a França. Ele tinha apenas 12 anos e sentia que ia ser incrível, afinal nunca teve medo de mudanças, adorava o inesperado e o inexplicável. Acontece que nem tudo saiu como ele imaginou.

Lembou-se também de como era genuína a sensação de estar seguindo seu coração. Era o que ele estava fazendo ali agora com seu trabalho mais precioso, estava seguindo o coração e iria confiar aquela parte de sua vida a outra pessoa. Ele tinha escrito um livro nos últimos três meses e teria que tomar importantes decisões em relação à obra. Mas, se seguir o coração era sempre tão revelador, inconfundível e genuíno, por que não sentia-se bem com o que estava prestes a fazer?

Ele sempre desconfiou de pessoas que eram muito racionais e acreditavam que todas as decisões e sensações vinham da mente. Para ele, o coração guardava todas as respostas e bastava ter sensibilidade para captar a mensagem. Acontece que, essa noite, nem ele acreditava nisso.

A sua bebida terminou e ele percebeu que nem a garrafa inteira seria o suficiente. O Rio Sena mantinha o fluxo enquanto ele imaginava se estava lendo corretamente a mensagem que o seu coração estava mandando. Enquanto criança ele sempre sentia que estava acompanhado, que tinha alguém com ele quando ia tomar qualquer decisão e sempre escutava essa voz que, ao passar dos anos, entendeu que era seu instinto, suas emoções, seu coração falando. Essa noite, sentia-se sozinho.

O padrasto chegou e era hora de seguir em frente ou desistir de tudo. No fundo ele sabia o porquê de todo aquele peso que carregava. Não escrevera o livro sozinho, a obra não era apenas sua e ele sabia disso. Por isso, a decisão sobre o que fazer em seguida não cabia só a ele.

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3 MESES ANTES

O nome dele é Pedro. Tinha terminado a faculdade de Ciências  Políticas e Direito e seguia a carreira que seu padrasto tinha visualizado, mas não a que queria. Sonhava em escrever algo que tivesse importância e significado. Pedro decidiu que esse era o momento. Iria encontrar a inspiração que precisava para seguir os seus sonhos. Sentou-se na grama ao redor da Torre Eiffel e o ar fresco combinado com a visão de Paris eram o combo perfeito. 

Pedro fechou os olhos por um instante para absorver a energia do local e escutou as notas iniciais da canção Ho Hey da banda The Lumineers. Pensou que alguém que estava por ali tinha colocado pra tocar uma de suas músicas preferidas. As primeiras frases da música deram a ele a inspiração que precisava. Ele já sabia sobre o que escreveria.

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O nome dela é Sofia. Ela abriu os olhos e estava de volta naquele apartamento empoeirado no Rio de Janeiro. A primeira coisa que fez ao despertar foi colocar pra tocar sua música preferida do The Lumineers que se chamava Ho Hey. Decidiu fechar os olhos novamente e só pensar na letra antes de seu dia começar de vez.

Quando abriu os olhos novamente, estava vendo um gramado enorme e seu quarto ao mesmo tempo, como uma sobreposição. O coração acelerou e ela abriu bastante os olhos. Pôde enxergar a Torre Eiffel também, mas continuava vendo seu quarto por cima, como se ele estivesse mais próximo e a França mais distante, mas via os dois ao mesmo tempo.

Sofia perdeu a cabeça. Fechou os olhos e gritou: 
- Meu Deus, o que está acontecendo comigo??

Pedro, que estava concentrado na música e nas recentes ideias que teve, se assustou quando a melodia foi seguida por um grito horrível que, estranhamente, parecia ter saído de sua cabeça. Fechou os olhos e quando os abriu novamente, além da visão de Paris, via um quarto horrível, empoeirado e velho. A voz continuou com devaneios e, no auge do desconforto, ele gritou: 
- O que está acontecendo?

Para sua surpresa, alguém respondeu:
- Eu não sei.

- Aonde você está? - Pedro questionou para a voz em sua cabeça.

- Rio de Janeiro e você?

- Paris.

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FIM DA PARTE 1

PARA LER A PARTE 2 CLIQUE AQUI.

3 comentários:

  1. Uau que texto maravilhoso! :) Adorei ler..está super bem escrito e é muito interessante.
    Beijinhos*
    Fico à espera da parte II...

    Comecei a seguir-te ;) Faz uma visita ao meu blogue e espero que gostes do que tenho publicado por lá...
    http://nuancesbyritadias.blogspot.pt/

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    1. Oi, Rita. Muito obrigada pelo carinho. A parte dois já está disponível. Visitarei seu blog agora. Volte sempre :D

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    2. Oi, Rita. Muito obrigada pelo carinho. A parte dois já está disponível. Visitarei seu blog agora. Volte sempre :D

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