Image Map

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

ACORDADA - PARTE FINAL



O impacto que uma pessoa pode causar na sua vida. Tenho pensado tanto nisso. Acontece que nenhum pensamento é importante quando você tem a sensação de que a sua vida está em risco. Você nunca sente tanta fome como quando está a minutos de comer, assim como você nunca deseja tanto algo ou alguém como quando você está prestes a ter. E é verdade: você nunca sente tanta vontade de viver como quando pensa que está prestes a morrer.

Posso dizer isso justamente porque estive nessa posição uma vez, no dia do acidente, e a sensação me atingiu novamente. O que eu fiz com a minha segunda chance? Desvalorizei, desmereci e não tive cuidado. Cuidado. Parece tão irrelevante agora. Estou na garagem. Acabei de ver o carro no último lugar que eu achei que ele estaria. Agora eu preciso sair daqui. Preciso sair porque acabei de descobrir que eu quero viver. Estive absolutamente perdida nos últimos dias. Segundas chances não foram feitas para se transformarem em terceiras e quartas.

A garagem fica um andar abaixo da sala. Significa dizer que eu preciso subir, atravessar todo o corredor até a porta da saída e correr como se minha vida dependesse disso, até porque eu sinto que ela depende. Tudo isso deve ser feito antes de Paul descer até a sala. Ele chamou o meu nome. Correr primeiro, pensar depois.

Meu peito está queimando e já estou no corredor. Ele é longo e dá acesso a diversas salas que agora são apenas borrões em meio à minha velocidade. A saída parece cada vez maior e cada vez mais próxima. Estou bem perto da primeira sala, aquela que eu deixava os materiais da editora, aquela onde eu deixei minhas opiniões sobre livros, minhas expectativas em relação ao meu próprio livro, aquela onde deixei meu coração. Ele precisa ir comigo agora.

Quando alcanço a porta da sala, já a centímetros da saída, Paul sai lá de dentro e impede a minha passagem. Segura os meus ombros e me pergunta onde eu penso que estou indo. 

Dizem por aí que você nunca sabe a real força que tem até que a sua única alternativa é ser forte. Deve ser por isso que eu decidi ali que não ia fugir. Usei basicamente toda a força do meu corpo para empurrá-lo para longe de mim, as lágrimas impedindo a minha visão, gritei:

- Eu encontrei o carro. Você foi o responsável por tudo isso não foi? - acusei aos berros.

- Ana, tenha calma, pense com clareza.

- Como você consegue ser tão frio??? Ter calma??? Eu sou metade da mulher que eu deveria ser e a culpa é sua - lágrimas e mais gritos e o meu dedo na cara dele.

- Ana, tem uma razão pra tudo. Você lembra de alguma coisa daquele dia não lembra? - ele questionou, parecendo nervoso com a situação, ansioso pra saber do que eu me lembrava.

Me atingiu que eu me lembrava daquelas pessoas e que a sensação de que elas tinham relação com o acidente ficou comigo por um tempo. Mas os pensamentos vinham com muita velocidade e nada fazia sentido. O garoto asiático disse que algo ia acontecer naquele dia e tinha a moça dos livros. Me atingiu novamente: eu liguei tanto para a pessoa que comprou aquelas edições raras que o número dela estava gravado na minha cabeça. 

O celular que Eric me deu ainda estava na minha mão e eu comecei a discar. Levantei o olhar para ver a expressão de Paul, afinal segurança era o último sentimento que ia me habitar naquele momento. Ele parecia preocupado.

- Você está ligando pra quem? O que você está fazendo?? Ana, você é muito impulsiva - ele disse, claramente incomodado.

Eu não tinha estrutura para deixar ele falar. Eu queria as respostas, mas queria falar, queria magoar, ferir, fazê-lo entender o que eu estava sentindo. Uma mistura intensa de ódio com desespero e desapontamento com ele, comigo, com o mundo.

- Eu me lembro daquele dia, daquelas pessoas. Acontece que eu tenho o número de uma delas - gritei e pressionei o botão verde.

Eu não sabia exatamente o que ia fazer e se alguém atenderia. A verdade é que não pensei nisso. Precisava ganhar tempo. Estava desesperada. Tudo aconteceu tão rápido. Desde que vi o carro e até o momento em que a ligação completou e começou a chamar. Algumas coisas poderiam acontecer a partir daí, mas o que veio em seguida eu também não esperava: tinha um celular no bolso dele e começou a tocar. 

Eu achei que ia cair no chão, porque meu corpo não era confiável naquele momento. O garoto tinha me dito que algo ia acontecer no dia do acidente. Paul está com o celular e o carro. Parecia bem claro na minha cabeça. Ele deu um passo em minha direção com a expressão de quem tentaria me segurar ali, mas eu joguei meu corpo contra o dele com força e o peguei de surpresa. Consegui sair da casa. A última coisa que ouvi enquanto partia correndo pela rua foi a sua voz que gritava:

- Você deveria se perguntar porque chamou o ocorrido de "acidente" todo esse tempo. Talvez tenha sido realmente um acidente.
_________________________________________________________________________________


Continuei correndo e alguns metros adiante encontrei Eric, que estava sozinho e não muito agitado, para minha surpresa.

- Recebi sua mensagem - disse, quase sem fôlego.

- Eu estava indo para o endereço - ele esclareceu.

- Mas esse é o tipo de coisa que você faz sozinho? - questionei.

- Não se preocupe quanto a isso, vamos te levar pra um local seguro - disse rapidamente, enquanto nos direcionava para o sentido contrário à casa de Paul.

- Você não tem que ir pra lá agora? - perguntei novamente.

- Ana - ele disse, enquanto segurava meu rosto entre suas mãos - você é a prioridade! Vejo que está muito agitada. Façamos o seguinte: vou te levar até o hospital para ser examinada, afinal você precisa voltar lá e cuidar dessa saúde. Enquanto você fica lá, eu resolvo todo o resto.

Confiei.

Ao chegarmos no hospital, Eric foi até a recepcionista e explicou a minha situação. Ela pediu que eu aguardasse um pouco e assim eu fiz. Ele se despediu com um abraço e partiu.

Fiquei pensando no fato de que eu tenho sorte. Apesar dos acontecimentos recentes, encontrei um bom amigo em Eric. Continuei pensando nisso e evitei que minha mente fosse até Paul. Eu trancaria os últimos eventos no canto mais afastado do meu pensamento e viveria bem. Não estava bem, mas ia ficar!

Alguns minutos se passaram e a moça sentada ao meu lado perguntou o que eu estava fazendo ali. Evitei grandes explicações. Disse apenas que eu tinha sofrido um acidente. Fiquei surpresa quando sua resposta foi:

- Eu sei.

- Como você sabe? - questionei, já curiosa.

- Eu quase moro nesse hospital. Minha filha está internada aqui há algum tempo e meu marido tem problema nos rins, por isso vem fazer hemodiálise com frequência. Eu acompanhei sua recuperação e me lembro do rapaz que estava com você - ela esclareceu.

- Ah, entendi. Pois é, o Eric é o policial que investiga o caso do meu acidente. Ele tem sido um bom amigo.

- Não lembro dele como policial - ela falou, parecendo confusa - mas sim como paciente. Ele era da psiquiatria e chegou aqui uns meses antes de você, depois de ter um surto nervoso.

As surpresas não paravam de chegar. Em meio ao choque da informação, abaixei a cabeça e fechei os olhos. Será que ninguém era quem eu realmente achava? A moça viu a confusão no meu olhar e continuou:

- Eu posso até perguntar para a recepcionista. Se tem alguém que sabe mais do que eu sobre esse lugar, definitivamente é ela.

E assim ela fez. Minutos depois, estávamos nós três conversando e eu estava prestes a receber informações preocupantes:

- Sim, o Eric é paciente do hospital. Foi liberado alguns dias depois que você chegou. Estranho é que, depois que ele foi pra casa, continuou voltando todos os dias pra te ver. Um dia eu perguntei o porquê e ele me falou que é o seu único parente vivo e que não deveríamos permitir a visita de mais ninguém.

- Como??? - eu já estava gritando novamente - Quando eu acordei, me disseram que ele era o policial do meu caso. Como ele pode se passar por meu parente e policial ao mesmo tempo?

- É um grande hospital, querida. Eu consigo ter uma noção das pessoas que entram e saem, mas nas alas os médicos ou enfermeiros não tem como saber. 

Eu apenas agradeci e me retirei dali. 

___________________________________________

As mãos e pernas tremiam. Em que tipo de enrascada eu consegui me colocar? Estava de volta ao zero. Não podia confiar em nada do que eu sabia. Aparentemente, tudo foi plantado. Não muito tempo atrás eu descobri que queria viver e que precisava ter mais cuidado com a minha segunda chance. Mas eu continuava depositando minha confiança nos lugares errados.

Estava cansada das lágrimas e do desespero. Queria paz, embora eu nem soubesse o que paz significava. Fui direto para a delegacia. Chegando lá, procurei pelo policial Eric e recebi a informação de que não havia policial Eric, apenas Eric. Aparentemente ele era irmão de um dos investigadores e como passou por problemas nos últimos tempos, estava passando um tempo sob os cuidados do irmão mais velho. Por isso tinha acesso à delegacia!

Saí de lá e apenas andei. Andei sem rumo porque eu não sabia o que fazer. O que vem em seguida?? Para onde ir?? Percebi como NY era linda, mas como tinha me trazido tanta miséria. Era mais fácil culpar a cidade que as pessoas. Era mais fácil culpar a cidade que a mim mesma. Parei literalmente no meio da rua, na frente de alguma casa, sentei no chão e chorei.

Não por muito tempo, porque meu celular tocou. Atendi sem olhar. 

- Ana? - era Paul.

- O que você quer?

- Não desliga, por favor! Serei breve. Você ama cachorros. Goldens, de preferência. Você quer viajar o mundo, começando pelo Japão. Livros são sua grande paixão e os preferidos são "Orgulho e Preconceito" e "O Morro dos Ventos Uivantes". Seu sonho é escrever algo que inspire alguém! Isso te lembra algo?

Aquele precioso instante em que nada faz sentido e, no segundo seguinte, as peças parecem se encaixar. Então eu respondi:

- Me lembra das coisas que vi antes do acidente! Uma mulher com dois cachorros, um  asiático fazendo propaganda de agência de viagens, outra mulher com edições lindas dessas obras. Não sei o que o meu livro tem a ver com isso tudo.

- Você se lembra qual livro estava levando até a minha casa naquele dia?

- Não. Você me disse que era algo capaz de mudar a literatura mundial, mas que eu não poderia saber - respondi.

- Era o seu livro. E o calendário marcando aquela data tinha uma razão específica. Eu estava chegando lá pra te pedir em casamento e fazer um flash mob constrangedor como no final de Amizade Colorida. Sei que você lembra dessa cena toda vez que passa pela Estação Central.

Era bom que eu já estava no chão. Não tinha mais pra onde cair. Sabe quando suas sensações e sentimentos são tão confusos que você não sabe como agir ou o que fazer? Resolvi ser sincera:

- Paul, não sei o que dizer. Mas, o que parecia um dia perfeitamente planejado, acabou com a minha vida. O que houve depois?

- Um homem atrasado, ansioso, apaixonado que exagerou na velocidade pra chegar a tempo e perdeu o controle do carro. Esse homem sou eu. No desespero, pedi que o garoto asiático levasse você ao hospital e deixasse o carro na minha casa depois. Mas não posso ter essa conversa pelo telefone, Ana. Me encontre na rua, cercada de pessoas, se você não confia em mim. Mas preciso falar com você, olho no olho.

Por um instante eu tinha esquecido de Eric, mas assim que me lembrei, senti um arrepio correr na minha espinha.

- Paul! - eu gritei - você precisa sair de casa. Eric está indo até aí e ele não é quem diz ser. Saia AGORA!

- Tô de saída. Me encontra na 5ª??

- Sim, já estou perto!

Ainda com o celular no ouvido, parti correndo em direção à casa da qual eu estava fugindo algumas horas antes. Minutos depois eu já conseguia ver Paul no final da rua. E Eric também. De carro. Em velocidade. 

Sensação de que já estive ali antes. Mas dessa vez eu era a telespectadora. Dessa vez eu gritei. Gritei o nome de Paul. Apenas o desespero correndo em minhas veias. Ele ainda não tinha entendido, mas eu já sabia. Já sabia sobre o impacto. O impacto das pessoas. O impacto do carro.

___________________________________________

2 meses depois.

"Só pense: você pode ser uma grande parte da vida de alguém e nem saber" Lucas Scott.

Estou na editora novamente. Na sala principal, analisando Wall Street daquela janela infinita. Tanta história ocorreu naquelas ruas, tantas partes de mim ficaram naquelas esquinas, na Estação, na 5ª Avenida. Sinto que eu poderia até deixar NY, mas ela nunca me deixaria.

Permito que o meu pensamento me leve até o dia em que perdi Paul. 

Eric o atropelou porque queria se vingar de Paul por ter me atropelado. Enquanto eu deixava o restante das minhas lágrimas na calçada, segurando o corpo do homem que eu mais amei e que mais me magoou, Eric me dizia como tudo ocorreu. 

Aparentemente ele estava terminando seu tratamento quando eu cheguei desacordada no hospital em primeiro de agosto e ele entendeu que eu precisava dele. Precisava de seus cuidados e de sua dedicação. Então ele me deu tudo. Me deu a vingança. Agora estava acabado. Ficaríamos juntos. Eu berrava que ele era louco e ele gritava me mandando calar a boca. Chamaram a polícia, a ambulância. Todo o resto é um borrão. Até o momento em que perdi Paul.

Perdi Paul no momento em que ele abriu os olhos. Estava lindo, mesmo que muito ferido. Tomei a coragem que eu não sabia que ainda estava em mim e disse que não voltaria a visitá-lo. Que nós não ficaríamos juntos. Que eu precisava encontrar o caminho para perdoá-lo por conta própria, mas que, principalmente, eu precisava encontrar o caminho para acreditar em mim.

Disse a ele que todas as oportunidades que ele me ofereceu foram por gostar de mim e não por meu talento e isso eu não poderia aceitar. Disse a ele que escolhi confiar nele tão rapidamente antes e depois do acidente porque ele sempre cuidou de mim. Confiei em Eric pelo mesmo motivo. E descobri que o problema não está em confiar nas pessoas, mas sim na minha necessidade de ter alguém segurando a minha mão. Disse a ele que precisava ir sozinha agora.

Vi uma singela lágrima escorrer de seu olho. Não passava nem perto de todas aquelas que derramei nos últimos tempos. Saí dali a tempo de ver Eric sendo preso e dar meus depoimentos. Fui direto para a editora de Paul e submeti o manuscrito do meu livro para análise, como todos os outros escritores amadores faziam. Se ele estivesse realmente pronto, iria voar por conta própria.

Desde então a missão tem sido apenas uma: reiniciar. Cada dia representa uma oportunidade e não estou disposta a perder nenhuma. Precisei perdoar. Passei muito tempo querendo que Paul tivesse cuidado com os meus sentimentos, cuidado com o efeito avassalador que ele causou em mim. A verdade é que não dá pra receber algo que a gente não deu. Eu fui de grande importância na vida de Eric e nem sabia disso. Significa que eu não fui muito cuidadosa também. Foi olhando para o meu interior, dia após dia, que consegui olhar para o interior do próximo. Tudo começa dentro da gente. Você pode ser grande parte da vida de uma pessoa e nem saber. Cuide dos sentimentos dos outros como se fossem os seus.

Paul sai do hospital hoje. A editora dele vai publicar o meu livro porque é um excelente livro e essa é a única e mais importante razão. Vamos trabalhar juntos porque sou uma de suas escritoras agora. Ainda o amo profundamente, mas ele precisa aprender a amar a melhor versão de mim. A versão independente, crescida, a mulher que eu sempre fui destinada a ser. Se ele conseguir fazer isso, ficaremos bem.

E se não, posso ter cachorros e viajar para o japão, além de ter edições bacanas de livros por conta própria. O meu eu já publiquei. Estou só começando.

Meu nome é Ana. Estou em NY e ACORDADA!

Nenhum comentário:

Postar um comentário