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sábado, 29 de agosto de 2015

ACORDADA - PARTE 4


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Flashback 1: 01 de Agosto de 2014 (Um ano antes do acidente).

É como no sonho. Eu estou naquela sala pronta pra implorar por um emprego. Recém formada em Literatura Estrangeira, cheia de débitos da faculdade pra pagar e desesperada. Sozinha em NY, pais mortos, sem tios, primos, avós ou qualquer membro de família. E me mandam entrar naquela sala. A estante, os livros, os vidros mostrando Wall Street, o homem. Ele se vira e me lembro do que senti, mas não sei descrever. Algumas sensações estão realmente além das palavras. E eu sei disso porque eu escrevo. Comecei um livro enquanto ainda estava na faculdade. Eu não saberia, em um milhão de vidas, escrever sobre o que está se passando nesse momento dentro de cada célula que compõe o meu corpo.

Não precisei implorar. Ele me ofereceu o trabalho de secretária da secretária dele. Eu realmente não sabia que essa função existia. Talvez ele tenha lido o desespero no meu comportamento. E foi impactante. O momento em que descobri que teria um salário, o momento em que percebi que estaria trabalhando para uma das maiores editoras da cidade, o momento em que conheci o homem da minha vida. Paul Torchill, dono da Torchill Editora.


Flashback 2: 12 de outubro de 2014

Um pouco mais de dois meses de trabalho. Estava satisfeitíssima com os rumos que a minha vida estava tomando, mesmo sendo a secretária da secretária do chefe. Passei esses meses tentando manter o máximo de distância possível dele. Apesar disso, ele era sempre muito educado quando me encontrava. Algumas vezes, ao olhar pra ele, percebi que ele já estava me olhando. E eu tentava desviar o olhar, mas ele sorria. Ocorreu umas três vezes nesses dois meses. É incrível! Você mal conhece a pessoa e o efeito que ela causa em você é tão latente que o corpo responde.

E aí a secretária oficial disse que ele estava me esperando na sala dele. Quando cheguei até lá, ele estava de costas, analisando os livros da sua estante. Se virou no instante em que eu entrei na sala, como se sentisse a minha presença ali antes mesmo de ver ou ouvir.

- Ana - ele iniciou - você escreve?

- Sim! - respondi envergonhada. Ele é um dos nomes mais influentes do mundo literário no momento. Mesmo não sendo escritor, todos os livros que ele enxergou potencial para publicar, foram um sucesso.

- Então, Ana, me diga algo. Você acha que seus pensamentos são preciosos?

- Sim - respondi mais uma vez - provavelmente o que eu tenho de mais precioso.

- Então, Ana, me diga mais uma coisa. Se os seus pensamentos são tão preciosos, por que colocá-los no papel para serem lidos?

- Porque dói ser lar de tanta preciosidade.

Paul sorri com a minha resposta. E continua ali sorrindo enquanto olha pra mim. Sinto que estou perdendo a compostura a cada segundo que passa. Mas ao mesmo tempo parece que os segundos não passam. Minha mente congelou esse momento, tenho certeza. E eu vou ter que escrever sobre isso, porque esse sorriso é realmente muita preciosidade para ficar preso na minha mente.

- Era exatamente o que eu queria ouvir, Ana - ele disse, quebrando o silêncio - Sabe, livros são resultados de pensamentos preciosos. Então, essa editora é, verdadeiramente, o meu tesouro. E por isso eu queria te dar uma das funções mais importantes não só para a literatura mundial, mas para mim também.

E foi assim que eu recebi a grande e bela chave que abria a porta de sua casa e, a partir desse dia, fiz todas as entregas literárias diretamente a ele às 16h. 


Flashback 3: 9 de novembro de 2014


Peguei a grande chave, abri a porta de madeira maciça daquela casa incrível em plena 5ª Avenida e entrei, como eu fazia todos os dias há quase um mês. Ele estaria sentado na segunda sala do corredor principal, à minha espera para pegar as impressões. 

Durante esse mês, fiquei após o expediente algumas vezes. Ele me pedia opinião sobre as obras e eu contei sobre as ideias do meu livro. Discutíamos por horas as decisões que os autores tinham tomado nos rascunhos e observávamos a construção dos personagens. Ele anotava no rascunho tudo que ele teria que falar com o autor e guardava em um cofre na sala. Depois disso me chamava pra comer e a gente conversava mais.

Me direcionei para a sala, como sempre, só que dessa vez ele não estava lá. Não demorou muito e ele me chamou. A voz vinha do segundo andar, então subi as escadas que eram também de madeira e encantadoras. Ele já me esperava no topo da escada e quando subi o último degrau, ele não se afastou. Envolveu um braço ao redor da minha cintura, o outro em torno da minha nuca e me beijou. 

Foi assim que aquela chave virou a chave da minha casa.

Flashback 4: 25 de dezembro de 2014.

Feriado de natal. Eu era a família dele e ele era a minha. Estávamos deitados na cama dele, que agora também era a minha. Com o frio dos lençóis sobre a minha pele e o calor do corpo dele sobre o meu. Silêncio pairava e não incomodava nenhum dos dois porque eu já sabia que palavras não conseguiam descrever muitos sentimentos. 

- O que você quer ganhar de natal? - ele me perguntou.

- Mais momentos como este - respondi.

- Fica tranquila que já está na pauta para os próximos anos - falou, sorrindo. E meu coração deu uma descompassada, porque aquele sorriso ainda era demais. - Mas me conta, Ana, quais são os seus maiores sonhos?

Pensei por uns segundos e respondi:
- Eu tenho milhares de sonhos. Quero conhecer o outro lado do mundo, quero ter uma família, quero me casar, quero escrever e ter muitos livros, quero ter uma casa, um lar pra onde eu possa sempre voltar e quero que lá tenha sempre cachorros, uma piscina, muita comida e toneladas de amor.

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As cenas passaram diante dos meus olhos em questão de segundos e então eu estava de volta ao saguão do hotel olhando pra ele. Como eu poderia ter esquecido da sua presença em mim, do impacto que ele me causa? Se me perguntasse hoje, sabendo como eu me sinto, eu diria que nenhum acidente no mundo poderia me fazer perder todos os momentos que passei com ele. 

Eu levantei e andei em sua direção. Ele sorriu e me esperou. O elevador chegou e antes que eu pudesse perguntar aonde ele esteve todo esse tempo, ele me empurrou pra dentro e tirou todos os pensamentos da minha cabeça. Me envolveu naqueles braços que pareciam minha casa e me beijou de forma desesperadora. Antes que eu pudesse notar, já estava no meu quarto, na minha cama, me entregando inteira e completamente. Suas mãos conheciam cada centímetro de mim e não exitavam em explorar o meu corpo. Me permiti sentir. Me permiti sentir a ânsia de tê-lo eternamente pra mim. Me permiti sentir o cheiro dele, tão familiar que impregnava todos os segundos que passávamos ali. Me permiti senti-lo dentro de mim antes de fazer qualquer pergunta.

Já estávamos deitados em meio àquele nosso silêncio especial quando bateram na porta do quarto. Minha primeira reação foi olhar o relógio e percebi que não tinha me dado conta que o dia já amanhecera. Antes que eu pudesse me mexer, Eric abriu a porta e entrou no quarto. Dei um grito e me sentei instantaneamente. Paul fez cara de poucos amigos, assim como Eric, mas como já estava dentro do quarto e não tinha como evitar o constrangimento, apenas falou:

- Desculpe a intromissão, Ana. Vejo que você esteve ocupada. Passei só para te informar que o garoto asiático está na delegacia e serei eu a dirigir o interrogatório hoje. Trouxe esse celular para você e vou ligar para ele e avisar qualquer coisa que eu venha a descobrir. Agora a ideia de ligar antes de aparecer aqui parece ainda melhor.

Antes que eu pudesse agradecer ou me desculpar, ele já  tinha largado o celular no móvel ao lado da porta e saído. Olhei pra Paul ainda deitado em toda sua beleza e segurança e sorri. Ele rendeu-se ao meu sorriso e sorriu também. Ah, a sensação de voltar pra casa depois de muito tempo era o que aquele sorriso significava. 

- Precisamos conversar - eu disse.

- Eu sei, Ana. Preciso me explicar, temos tanto pra falar, mas eu estou com o coração cheio. Você não tem noção do tamanho do desespero que senti cada vez que pensava na possibilidade de perder você. Me desculpe por ser tão invasivo na abordagem, mas quando te vi eu apenas não consegui me controlar.

Eu sorri, porque aparentemente era tudo que eu sabia fazer desde que o reencontrei. E ele continuou:
- Vamos pra casa primeiro? Já fechei sua conta aqui no hotel e paguei tudo. Minha casa não é minha e nem é casa se você não estiver lá. Quando chegarmos podemos conversar com calma. Preciso adiantar que eu tentei te visitar nesse mês e simplesmente não permitiram porque eu não era família. Eu nunca abandonaria você. Quando te deram alta, o hospital não quis informar pra onde você tinha ido. Eu já estava acionando o departamento jurídico da editora pra resolver isso, quando o hospital me ligou dizendo que você estava aqui.

- Não vamos mais falar de sofrimento, Paul. Vamos pra casa. Agora me diga: qual o endereço da nossa casa? Ainda não me lembro de tudo e já quero começar a me informar.

- 5ª avenida, sentido norte do WSP, Manhattan, NY - disse ao sorrir com os olhos. 

E então nós fomos. Decidi que queria andar até lá. Ele me perguntou do que eu me lembrei e eu falei sobre as quatro memórias principais. E ele comentou sobre as tantas outras que eu ainda ia recuperar. Me disse sobre como estava nervoso no dia que me beijou pela primeira vez. Mas como teve certeza de que foi a decisão certa a tomar e que a minha expressão de envergonhada e confusa depois que nos beijamos ainda é a memória preferida dele. Me disse também sobre quando contei a ele que era virgem e da genuína felicidade quando descobriu que ele seria o primeiro. Me falou também como quer ser o último e o único homem da minha vida. E eu acabei entrando em mais um daqueles momentos em que não consigo explicar.

A casa estava exatamente do jeito que me lembrava. A gente comeu na sala vendo TV, tomamos banho, conversamos muito mais. Ele colocou nossa música de Ray pra tocar e eu falei a ele que quando ouvi no saguão do hotel, senti meu coração aquecer, mas que não sabia o porquê. Ele me disse que me amou desde o primeiro segundo em que me viu. E que quando eu disse que estava pronta para me entregar completamente a ele, ele preparou tudo em casa. Jogou rosas da porta até o quarto e quando eu cheguei, às 16h, ele colocou a música pra tocar. E a canção marcou o dia em que deixamos de ser dois para sermos apenas um.

O toque dele parecia tão familiar, mas ao mesmo tempo era tudo tão novo, as sensações eram tão claras, o efeito dele em mim era tão único que eu não queria me afastar nem por um segundo. Eu estava irremediavelmente apaixonada e mal podia esperar pelo resto da minha vida. De repente, nada do que me preocupava dois dias atrás fazia sentido. Ele tentou falar sobre o acidente, mas eu disse a ele que eu só me lembrava dos segundos anteriores e de algumas pessoas. E foi aí que me lembrei do calendário que eu tinha recebido e que estava na bolsa. Decidi descer até a sala pra pegar e mostrar pra ele.

Quando cheguei na sala e abri a bolsa, vi que tinha uma mensagem de texto no celular e ela dizia:

"O garoto falou. O carro está neste endereço: 5ª avenida, sentido norte do WSP, Manhattan. Estamos indo pra lá imediatamente. Eric".

O chão desapareceu e eu desmoronei. Entre as lágrimas e o coração acelerado, corri até a garagem. Estava lá, o carro, não mais amassado, mas era o mesmo carro descrito pela testemunha ocular. 

E a voz de Paul me chamando.

Meu nome é Ana, estou acordada há três dias, em NY e correndo pra salvar a minha vida.

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