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sábado, 22 de agosto de 2015

ACORDADA - DIA 2 (PARTE 3)



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- Você sabia que eu ia me acidentar?? - gritei, já num nível de indignação e medo que me dominavam.

- Claro que não! - disse o garoto - Outra coisa ia acontecer ali! Mas sinto muito, eu não posso contar.

- Como assim? - dessa vez foi Eric que gritou - Você está em meio a uma investigação. Essa moça se acidentou e perdeu a memória e você está achando que pode filtrar informações?

- Olha só - continuou o garoto - eu sinto muito pelo que te aconteceu, Ana. Mas parte da minha função naquele dia era não comentar nada pra ninguém. Eu fui pago pra isso. Eu sei também que se estou em meio a uma investigação, você precisa me intimar a comparecer na delegacia para prestar esclarecimentos. Se você veio na minha porta, deveria me agradecer pela cortesia que estou fazendo ao responder suas perguntas. Mas já me cansei! Passar bem.


- Calma! - eu disse, já angustiada com a possibilidade de sair dali com mais dúvidas do que cheguei. - Eu não me lembro nem onde moro ou o que farei em seguida. Nenhum membro da minha família ou amigos vieram à minha procura nesse mês. Recebi alta e não faço ideia do que fazer. Você sabe pelo menos pra onde eu estava indo ou o que eu estava fazendo? Eu ia encontrar alguém ou ia pra casa? Você sabe onde é minha casa?

Mal percebi que entre essas perguntas que eu fazia a ele, as lágrimas tomavam conta de mim. Eu deixei o desespero entrar e estava tão exausta que poderia cair no chão ali mesmo. Eu dei vazão ao medo e iniciei um choro descontrolado que eu não fazia ideia de como parar. Doía. O peito, a alma, os machucados, os pensamentos. Eu não sabia quem eu era, mas já tinha descoberto nesse dia que passei acordada que ser eu doía.

- Pense cuidadosamente em tudo que você viu antes do acidente, Ana. Se você lembra de mim, então deve se lembrar dos outros. Todos estavam lá no mesmo propósito! - O garoto disse e voltou para o seu lar.

Eu já estava no carro com Eric quando ele disse que tinha algo pra mim. Era minha bolsa com alguns pertences! Lá dentro tinham documentos, o calendário que recebi antes do acidente, uma boa quantia de dinheiro e uma chave muito peculiar. Ela era grande e pesada. Feita de um metal com coloração rústica. Era uma bela chave!

- Sabe o que essa chave abre? - eu perguntei a Eric.

- Ana, eu sinto muito, mas não. Sei que parece que não estamos fazendo nosso trabalho. Mas até hoje, tudo estava muito complicado. Tínhamos uma vítima desacordada há um mês. O carro desaparecido, o garoto também. Sinto que começaremos a avançar agora. Providenciarei a intimação para que o garoto nos diga onde ele deixou o carro. E partiremos daí - respondeu.

- Me desculpa, Eric. Sei que está além da sua função, mas pra onde eu vou agora? Não sei o que fazer! - perguntei já sentindo as palavras embargarem na garganta e o choro se apresentando. 

- Eu realmente sinto muitíssimo, Ana. Colocamos anúncios na mídia e o caso esteve pelos jornais, mas ninguém apareceu no hospital procurando por você. Pensei que poderia te deixar em um hotel perto do Centro e pela manhã eu passo por lá pra te ver e trazer notícias. Pretendo ouvir aquele garoto amanhã no primeiro horário.

Assim ele fez. Menos de uma hora depois eu já estava deitada. O quarto era pequeno demais para todos os pensamentos que me habitavam. Eu precisava desligar a minha mente porque meus próprios devaneios estavam me machucando. Sozinha. Era o que eu era. Meu nome é Ana e eu não tenho ninguém.

Eu não trabalho em lugar nenhum? Eu não tenho um amigo ou qualquer outra pessoa que tenha se preocupado a ponto de ir ao hospital ver se eu estava viva? Sei que eu não lembro nada desse mundo, mas de uma coisa eu sei. Não é nesse mundo que eu gostaria de acordar. E então eu já estava chorando de novo. As lágrimas vinham com tanta facilidade ultimamente. Além de sozinha eu era fraca e chorona. Percebi que eu não queria acordar nem nesse mundo e muito menos nesse corpo. Patética era outra característica minha. É, aparentemente eu já sei muita coisa sobre mim. Ana, sozinha, fraca, chorona, patética.

O dia já tinha amanhecido quando decidi que se eu acordei, tinha recebido uma nova chance. E agora eu seria quem eu quisesse ser. Estava começando de novo. Não tinha ninguém mesmo pra desapontar ou para responder às expectativas. Eu só tinha a mim mesma e já tinha me desapontado na noite passada com tanta mediocridade. Serei mais forte de agora em diante. Eu não tenho nada. Só me resta descobrir o que aconteceu comigo.

Fui até a recepção disposta a encontrar respostas. Uma daquelas pessoas que vi antes do acidente, estava com edições maravilhosas de clássicos da literatura. Se eu estivesse correta, eram primeiras edições e, além de valer muito,  eram raríssimas e poderiam me levar diretamente à dona. Outro fator me ajudava:  o hotel ficava nas imediações do local onde ocorreu o acidente. 

Expliquei a situação para a recepcionista e perguntei se havia por perto alguma livraria que vendia edições raras de livros. Para minha surpresa e alegria, ela me disse que havia sim. Agora eu já sabia aonde ir, mas pensei que dificilmente o dono da loja ia querer me dar informações de possíveis clientes. Então, decidi que iria esperar Eric e então ele me acompanharia até lá. 

Voltei para o meu quarto e aguardei. Ainda eram sete da manhã e eu não tinha pregado os olhos. Enquanto eu pensava em como minha vida estava de cabeça pra baixo, peguei no sono. 

Então eu estava em um local cheio de escritórios, muitas salas de vidro com mesas e computadores. Olho para as minhas mãos e vejo um documento simples que indicava todas as minhas experiências profissionais. Alguém manda eu entrar na sala principal. Observo atentamente. Tem uma estante de madeira brilhante cheia de livros lindos, um sofá rústico, janelas de vidro do teto até o chão indicando uma bela New York lá atrás. E há um homem de costas pra mim. Terno bege bem passado, cabelos castanhos e lisos com leves cachos na região da nuca. Alto e esguio. Posso arriscar dizer que é belo, mesmo estando de costas. Ele começa a se virar e posso até ver olhos igualmente castanhos e nariz perfeitamente desenhado. Mas antes de ele se virar completamente, alguém bate na porta.

E então eu acordo! Pareceu muito real. Será que foi? Será que aquilo aconteceu? Enquanto pensava nisso, caminhei até  a porta para abrir, já que a batida tinha sido real. Era Eric que já entrou me dizendo que o garoto estava sendo ouvido na delegacia, mas se recusava a contar onde tinha deixado o carro. Aproveitei e contei a ele sobre a livraria e rapidamente partimos para lá.

Quando chegamos no estabelecimento fiquei profundamente encantada com a quantidade de livros belíssimos que tinha ali. Eu realmente deveria ser uma leitora assídua, porque estava me sentindo em casa ali. Desde que acordei, foi o primeiro local em que me senti segura.

Eu estava certa ao ir até lá com Eric. O dono do local, um senhor chamado Sam, concordou em dar algumas informações porque Eric era da polícia. Segundo ele, um mês antes, primeiras edições de "O Morro dos Ventos Uivantes" e "Orgulho e Preconceito" tinham sido compradas por uma moça. Muito relutantemente ele decidiu dar apenas o telefone que ela tinha informado na hora de fazer o cadastro na loja. 

Decidimos sair de lá e ir diretamente para a delegacia. Eu não tinha mesmo outro destino, então passamos o dia tentando fazer contato com a moça pelo número que Sam nos deu. A ligação completava, mas chamava até cair. Deixamos recado de voz e no restante do tempo assistimos ao depoimento do rapaz asiático que, mesmo com todas as perguntas, se recusava a falar sobre o carro. 

Já era noite quando Eric me levou de volta ao hotel. Não sei se chamaria o segundo dia acordada de um dia produtivo. Não consegui falar com a moça dos livros e o rapaz se recusava a contar qualquer coisa. O que aconteceu de tão horrível naquele dia a ponto de eu não conseguir descobrir nada??

Entrei no saguão do hotel, dei boa noite para a recepcionista. Já me direcionava para o elevador quando ouvi que tocava uma música que eu reconhecia. Era a voz de Ray Lamontagne e a música era ''Let it be me''. Meu coração aqueceu instantaneamente e a sensação de já ter vivido aquilo me atingiu com toda força. Minhas pernas enfraqueceram e me sentei no sofá próximo ao elevador. Quando levantei o rosto, vi aquele homem do meu sonho em frente ao elevador. Estava de costas pra mim, como no sonho. Alto, esguio, certeza que ele era belo, cabelos perfeitos. Ele se virou e dessa vez nada o interrompeu. E então eu me lembrei.

Meu nome é Ana, estou em NY, acordada há dois dias e não estou mais sozinha.

2 comentários:

  1. Parece muito bom , eu adoro ler contos
    vou ler tudo e resenhar no meu blog
    adorei a dica flor

    Mil beijocas
    ⋙ ♥ Blog Livros com café

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    Respostas
    1. Pepi, muito obrigada pela atenção e pelo comentário. Fico feliz que tenha gostado!!! E mt mt mt obrigada mesmo por estar disposta a fazer resenha! Vou visitar seu blog!!!

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