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sábado, 8 de agosto de 2015

ACORDADA - DIA 1 (PARTE 2)


PARA LER A PARTE 1 DE ACORDADA CLIQUE AQUI!


Forço o meu corpo a se sentar e sinto dores, mas não tanto quanto esperei. Devo estar me recuperando bem, pelo menos dos males físicos. Me desato de todos aqueles fios do hospital e caminho lentamente até um espelho pequeno pendurado na parede à minha direita. Fito a imagem que aparece. Cabelos castanhos bagunçados, olhos claros sem ânimo e pele pálida. Sinto uma pontada no coração ao perceber que, antes de chegar ao espelho, eu não sabia o que esperar. Não lembrava da minha aparência e não me sinto bem dentro do meu próprio corpo.


Enquanto pensava o que fazer em seguida, alguém abriu a porta e eu me viro para ver que uma enfermeira, seguida de um médico entravam no quarto.

- Ana, fico feliz por entrar aqui e já te ver assim, de pé. Sou o Dr. Bill. Como se sente? - questiona o médico com um sorriso simpático. A enfermeira também sorri e os dois aguardam minha resposta.

- Não consigo me lembrar de praticamente nada. Então, diria que estou bem miserável. - respondi.

- Fisicamente, eu perguntava. Mas prossigamos. A falha na sua memória foi resultante do impacto do carro que fez com que você batesse a cabeça na calçada.

- Ótimo! Impacto parece que anda sendo a palavra de ordem na minha vida. - falei, já irritada com toda aquela situação.

- Vejo que seu humor não resolveu acordar junto com você. E temo que você não vai se animar com o que tenho pra falar. A polícia está investigando o caso do seu acidente e pediram que avisássemos no momento em que você acordasse. - falou devagar o médico.

- Investigando? O que há para investigar? - questionei.

- Não saberei te informar, Ana. Mas o policial responsável por tomar suas declarações virá até aqui e ele deve saber te explicar melhor. De qualquer forma, você está recuperada dos machucados. Vamos examiná-la e se estiver tudo normal, após a visita do policial, você estará liberada - respondeu o médico já se encaminhando para a porta - tente descansar mais um pouco - disse antes de sair.

A enfermeira me ajudou a deitar e reconectou os aparelhos. Examinou os locais que eu tinha me machucado, onde agora restavam apenas algumas marcas amareladas. Disse que eu tive muita sorte, considerando a velocidade em que fui atingida. Os problemas mais sérios tinham sido os neurológicos e, segundo ela, foram eles que me fizeram dormir por um mês. Trouxe remédios e depois se foi também. 

Voltei para os meus pensamentos, mesmo eles sendo o que havia de mais assustador no momento. Procuro qualquer informação na minha mente sobre o que poderia estar acontecendo. Só me lembro dos rostos daquelas pessoas e sinto que há uma razão pra isso. Algo que se destacou. Mas se há uma investigação inteira pra descobrir, talvez eu devesse mesmo descansar.

Fecho os olhos e tento dormir. Devo ter conseguido, porque quando abro-os, vejo que uma hora se passou e já são quatro da tarde. Nesse momento sinto uma agonia, como se estivesse atrasada para algo muito importante. Como se nunca fosse alcançar algo que eu queira muito. Afasto a sensação quando percebo que estou sendo observada pela enfermeira e um homem de estatura média com roupas que indicam ser ele o policial.

A enfermeira avisa que ele vai me fazer algumas perguntas e se retira.

- Olá Ana. Meu nome é Eric. Sei que o que aconteceu foi traumático pra você e que você ainda está se recuperando, então serei direto. O que se lembra do dia do acidente?

- Muito pouco. Na verdade, não lembro nada sobre a minha vida, quem eu sou, de onde venho. O que vocês já descobriram? Porque há uma investigação sobre o acidente? Talvez se e souber em que pé estamos, possa ajudar mais.

- Não sabemos quem foi o responsável pelo acidente, então não houve muito avanço. Sabemos que um jovem de estatura média e feições asiáticas te deixou aqui no hospital após o ocorrido, porque um dos seguranças presenciou. Pelo depoimento da testemunha ocular, ele dirigia um Honda CR-V com a frente amassada. Pela descrição, foi o mesmo carro que te atingiu.

- Então ele foi o responsável? Achei que casos de hit and run* eram fáceis de pegar o culpado - disse quase sem conseguir respirar. Aquele era, definitivamente, um assunto delicado.

- É o principal suspeito, mas a situação é toda muito estranha. Não conseguimos localizar o garoto, muito menos o carro. E isso tem empatado o andamento da investigação. Você tem alguma ideia de quem ele seja?

Garoto asiático. Meu Deus, eu me lembro. O asiático era o garoto propaganda da agência de viagens com quem me bati na rua. Uma das únicas pessoas de quem me lembro.

- Sim!!! - gritei - passei por um garoto asiático momentos antes do acidente. Ele estava trabalhando para uma agência de viagens. Me lembro perfeitamente de seu sorriso pra mim. Ele pode até ter me dado socorro, mas não poderia ter sido ele o responsável. E me dar socorro no próprio carro do acidente? Pouco provável, não acha?

- Ana, você já foi de grande ajuda. Vou informar o pessoal da corporação e eles devem chegar a um resultado. Se você já estiver liberada dos cuidados médicos, gostaria de ir comigo? O reconhecimento será importante!

- Claro - respondi e ele se retirou.

Uma hora de muita angústia se passou até que finalmente recebi alta. Ainda terei consultas com um neurologista, mas por agora posso ir com Eric! Que bom que irei com ele para algum lugar, afinal, não sei aonde é minha casa ou se tenho família.

Eric chega e me diz que, de todas as agências de NY, eles reduziram para aquelas em um raio de 10km da Estação Central e então para aquelas que tinham funcionários asiáticos. Curiosamente, só havia um! Fomos ao encontro dele.

Chegamos em um apartamento e Eric diz que estamos no Brooklyn. Tocamos a campainha e somos recebidos exatamente por quem queríamos ver. Até hoje achava que todos os asiáticos eram iguais. Se eles são mesmo, não saberei dizer. Mas sei que aquele ali é quem eu procuro. E mesmo se eu não soubesse, sua feição ao me ver entregaria.

- Boa tarde - cumprimenta Eric - acredito que você saiba porque estamos aqui. Serei direto. Qual a sua participação no acidente que ocorreu em primeiro de agosto envolvendo essa jovem?

- Boa tarde - diz o jovem - com o acidente, nada. Eu estava apenas fazendo o que me pediram.

- O que te pediram? - dessa vez fui eu que perguntei.

- Eu não estava naquele local, naquela hora exata por causa da agência. Eu fui contratado para estar ali quando você passasse.

- Você sabia o que se passaria ali? - questionei mais uma vez, porque a ansiedade era demais.

- Sim!

A resposta me atingiu como uma lâmina. Não foi um acidente? Sinto as pernas falharem. As vezes procuramos por respostas que não estamos prontos para receber. O impacto. Nunca estamos prontos para o impacto!

Meu nome é Ana. Estou NY, acordada há um dia e tem alguém querendo me matar!


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* bater e fugir. Expressão do inglês utilizada para casos em que houve atropelamento e o motorista foge sem prestar socorro.


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