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terça-feira, 14 de abril de 2015

Texto: Como as páginas amarelas de um velho livro.


Tenho vários livros perfeitamente alinhados na estante ao lado da minha cama. À noite, tenho a impressão que eles conversam entre si e trocam suas histórias. Dentre todos eles tem um especial, um que eu li várias vezes e que já passou sua história por tantas pessoas, que já está completamente amassado e se desintegrando. Eu encontrei esse livro quando eu não estava procurando, numa feirinha qualquer onde as pessoas vendem seus itens usados. Ninguém queria mais ele, mas eu sim, eu sempre vou querer livros, e sempre vou querer esse livro. Sabe por quê? Porque nós somos esse livro.


Eu também te encontrei por acaso, quando eu não estava procurando, quando o mundo estava passando lá fora e você resolveu passar por mim. Dizem que as melhores coisas da vida acontecem quando você não está olhando e eu não estava, mas você resolveu ficar e eu parei de devanear. Eu nem imaginei que fosse te amar desse jeito. Eu não fazia ideia que tentaria ler seus pensamentos e passear por suas frases, como fiz tantas vezes com aquele velho livro.

Nosso dinamismo, nossa convivência me intrigava cada dia mais. Como você podia estar ali livre e pronto pra mim bem na hora que eu estava distraída demais, bem na hora que eu nem sabia como eu precisava? Mas eu passei a nem querer saber as respostas, eu fechei meus olhos e não quis mais fazer as perguntas. Eu não estava mais sozinha e às vezes estamos tão desesperados pra ter alguém, pra ter companhia que desistimos de questionar, abandonamos a crítica e apenas derrubamos os muros ao redor de nós.

Com o tempo fui me acostumando a ter você, a entender você, a ler você. Com o tempo, eu te conhecia tão bem quanto os capítulos do meu livro. Até que você passou a ser a minha leitura preferida, a minha melhor companhia, a representação de um lugar especial, minha casa em uma pessoa. Eu até pensei que não precisava mais dos livros, eu já tinha a minha história e podia deixar de apreciar a dos outros, porque estávamos escrevendo a nossa.

Acontece que quando eu li aquele meu livro pelas primeiras vezes, as experiências eram diversas, mas depois da quarta ou quinta vez, nada mudava. Apesar disso, ele continuava me alegrando pelo fato de estar ali na minha estante. Só que com você não foi assim, porque quando você entendeu que já não tinha mais nada de novo, você não ficou, na verdade você se foi tão rápido quanto chegou e só sobrou o meu livro na estante sem uma pessoa que o representasse.


Descobri que os livros ficariam sempre ali, as pessoas não. Descobri que a sua falta teria que ser suprida com outra leitura, outros encontros, outros amores. Descobri que o que eu achei que era história, não chegou nem a um pequeno conto. Desejei que eu tivesse continuado distraída, desejei não saber que já era tarde demais. Entendi que se você dividiu sua história com diversas pessoas, não seria comigo que você escreveria uma nova. Me arrependi. Me arrependi de ter pensado em você como o romance do meu melhor livro, enquanto para você eu não passei de uma página amarela da sua edição de colecionador.

2 comentários:

  1. karolsinha, vc voltou com tudo (...) adorei, esta perfito como todos os outro pq seus textos sempre nos leva a refletir sobre uma fase da vida o que adoro,pois, sempre me orgulho da capacidade do ser humano sempre evoluir....Parabéns!!!! arrasou ...

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    1. Amiga, VC que manda aqui. Se VC gostou, ta tudo certo. Obrigada por tudo sempre ta? 💕💕💕💕💕

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